Saturday, March 19, 2011

Small Faces - Ogdens' Nut Gone Flake [1968]




A psicodelia inglesa veio um pouquinho depois da americana, e foi certamente influenciada por ela, na segunda metade dos anos 60. Fato é que, por volta do ano de 1967 foi o ápice da psicodelia na Inglaterra com o lançamento de discos como o clássico Pet Sounds (1966) do The Beach Boys, o eleito por muito como o melhor disco de todos os tempos Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) dos The Beatles, o controverso Their Satanic Majesties Request (1967) dos Rolling Stones, o album de estréia do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn (1967), do blues psicodélico do Cream em Disraeli Gears (1966), só para citar alguns…


O Small Faces também já tinha feito um álbum que marcou a transição do rhythm’n blues para o psicodelismo em Small Faces de 1967, mas foi em Ogdens’ Nut Gone Flake que a coisa pegou (o termo Ogdens’ também é grafado como Ogden’s em diferentes edições do álbum). Cabe aqui um comentário sobre o nome da banda. Em discos, singles e sites diversos encontramos o nome da banda como The Small Faces ou só Small Faces. Sinceramente até hoje não consegui definir o correto e vou usar o nome sem o "The".

Contando com Ronnie Lane (baixo e voz), Steve Marriot (guitarra e voz principal), Kenny Jones (bateria) e Ian McLagan (teclados e voz) o Small Faces gravou um álbum que será lembrado eternamente. Na época eles tinham assinado a pouco tempo com o selo do empresário dos Stones, Andrew Oldham, a Immediate, e foram incentivados por ele a aumentar a abrangência de seu som e desenvolver as idéias que tinham.

Capa de uma coletânea da banda à frente de um simbolo da cultura mod,
que também chegou a ser utilizado pelo The Who em Quadrophenia

A intenção de fazer um álbum conceitual veio durante um passeio de barco pelo Rio Tâmisa sob a influência de diversos tipos de psicotrópicos. Porém na época, The Who, The Pretty Things e The Beatles entre outros tinham lançado ou estavam na iminência de lançar seus próprios discos conceituais. Como nenhum dos componentes foi estudante de artes, como eram os componentes dos grupos citados, essa história de ter de imaginar um conceito e desenvolvê-lo não seria fácil, mesmo sendo estimulados por substâncias químicas. Então a solução foi fazer um disco meio conceitual, meio com músicas independentes.

O álbum abre com a instumental “Ogdens’ Nut Gone Flake”, que mostra bem o que será o álbum, principalmente na segunda parte do mesmo. É construída através de um teclado com efeitos de wha-wha tocado por Marriot acompanhado de um piano tocado por McLagan. Na sequència vem a sensacional "Afterglow” (também chamada de “Afterglow (Of Your Love)”), que apesar de ser rotulada por Steve Marriot com “apenas uma canção boba de amor” é considerada por muitos o melhor trabalho de dele nos vocais, ou “uma resposta insolente à Otis Redding”, como disse Mick Farren.

Com acordes simples acompanhados de palmas inicia a calma “Long Agos and Worlds Apart”, que não se não é um dos destaques ao menos faz uma boa transição. Entre “Afterglow” e a excelente “Rene” cheia de bons backing vocals. Fala de uma “mulher da vida” que um dia ensinou algumas coisas para Marriot. É o tipo de música que pode se arrastar por muito tempo ao vivo com um final propício para diversas improvisações. Na sequência vem “Song of a Baker” com guitarras distorcidas, bateria se destacando e novamente um ótimo trabalho de voz de Marriot.

Lazy Sunday”, foi o primeiro single, falava de alguns vizinhos de Steve, mas a maior curiosidade dela é que ele canta a música no que ele mesmo diz ser a canção que mais parece sua voz natural, exceto que o sotaque cockney foi um pouco exagerado propositalmente devido ao teor da letra. A intenção de se cantar assim foi de tentar ficar o mais diferente possível dos cantores pop americanos. A música se parece muito com as canções infantis exceto pelo solo de mellotron.

Ao longo do lado B do LP, a narração da história ficou a cargo de Stanley Unwin, que era um comediante e um editor de livros inglês. Unwin foi o responsável pelo lançamento de um dos maiores clássicos literários do século 20, O Senhor dos Anéis. Ele pagou o filho de dez anos para ler o texto que Tolkien tinha mandado para publicação e, após um relatório positivo, publicou o livro. A seguir tem um vídeo com apenas a narração completa que aparece no álbum, sem as músicas.

       

O conceito do (meio) álbum surgiu a partir de Ronnie Lane que olhando para a lua, provavelmente no período crescente ou minguante, ficou perguntando-se onde estava escondida a outra metade. Assim nasceu a história do personagem Happiness Stan que procura pela outra metade da lua em uma alegoria à vontade que todos temos de completar nossas vidas cheias de frustrações, preocupações, etc. Happiness Stan apaixona-se pela lua e de repente alguém some com a metade dela ou ela é comida pelo tempo. Porém de uma hora para outra a metade aparece de novo, como se ela tivesse vida. O nome Stan veio do nome do pai e do irmão mais velho de Ronnie.

Logo no início e após a introdução de Stanley Unwin já podemos perceber que teremos uma história a ser contada com a melodia parecida com as de desenhos animados antigos em “Happines Stan”. Mesmo sendo uma história a parte musical é bem interessante. “Rollin’ Over” é um hard rock padrão se considerarmos a época que foi lançada. A fantástica “The Hungry Intruder” em que Marriot arrasa novamente. A seguinte é a psicodélica “The Journey” na qual sabemos como é voar nas costas de um mosquito gigante. “Mad Jonh” é um folk rock de primeira e “Happy Days Toy Town” que, segundo alguns críticos, é como se os Beatles estivessem tocando "Always Look on the Bright Side of Life" do grupo de comediantes inglês Monty Phyton.

Relançamento recente em LP
O álbum ficou seis semanas em primeiro lugar nas paradas, tempo considerado longo e na época era um feito que só os Beatles conseguiam. Os singles de “Lazy Sunday” e “Afterglow” ficaram no número 2 e 36, respectivamente. Foi lançado em um box de metal circular simulando uma lata de fumo. Dentro da lata havia algumas sugestivas folhas de seda. Por ser uma embalagem cara foi relançada ainda na forma circular, mas dessa vêz em papelão, em formato gatefold, como os discos normais. O próprio nome do álbum foi uma paródia para Ogdens’ Nut-Brown Flake uma marca de fumo produzida desde 1899. Em CD foi lançado algumas vezes em formato simples, mas em 2006 saiu uma latinha circular contendo três discos sendo que um tem a versão em stereo, outro a versão em mono e o terceiro é um documentário sobre a gravação do disco daquela série Classic Álbuns.



Em 1969 Marriot surpreende todo mundo e se desliga da banda dizendo que não estava contente com o direcionamento musical do grupo e não poderia mais contribuir musicalmente. Steve Marriot já estava frustado desde o lançamento de Ogdens’ Nut Gone Flake por não conseguir executar ao vivo uma obra prima de estúdio. Na verdade apenas uma vez o disco foi completamente tocado ao vivo e em um programa da BBC chamado Colour Me Pop. Marriot seguiu a vida juntando-se a Peter Frampton no Humble Pie. O resto do grupo trouxe Rod Stewart e Ron Wood (futuro guitarrista dos Stones) e, aproveitando a mudança, resolveram também encurtar o nome da banda para Faces.

Tuesday, March 15, 2011

Lucifer Was - Underground and Beyond [1997]



Nós que gostamos de garimpar bandas esquecidas dos anos 60, 70 e 80 temos diversos exemplos de grupos que não tiveram o devido reconhecimento ou até mesmo não tiveram reconhecimento nenhum. Isso se deve a inúmeros fatores como falta de grana, escolhas erradas, má gestão ou simplesmente falta de sorte. Muitas dessas bandas surgiram, tocaram, compuseram músicas e nunca sequer conseguiram gravar um disco. Esse é o caso do Lucifer Was.

Para aqueles que ficaram curiosos de como eles chegaram nesse nome incomum para batizar a banda vou tentar resumir a história. No início a banda se chamava Ezra West, nome retirado da literatura inglesa do mesmo modo que aconteceu com Jethro Tull e Uriah Heep. Porém a pronúncia do nome sempre confundia as pessoas e isso os aborrecia bastante. Cansados de tentar explicar a origem desse nome trocaram-o para Lucifer. Independentemente das pessoas acharem esse nome adequado ou não para uma banda já haviam algumas (!) com o mesmo nome nos EUA e na Alemanha e isso também causava confusão. Sem decidir por um nome definitivo, enquanto não pensavam em outro e tendo em mente que Lucifer não seria mais utilizado, a resposta que começaram a dar para a pergunta “qual o nome da banda?” era a mesma: “Era Lucifer”, ou, em inglês, Lucifer Was. Assim acabaram adotando esse nome.

O Lucifer Was tocou junto por anos no início da década de 70 em seu país de origem, a Noruega. Chegaram a participar de alguns festivais e tiveram um relativo sucesso no underground do norte da Europa. Tocavam tanto por lá que Jan Ødegård, tecladista, ficou cansado e resolveu sair, ocasionando precocemente o fim da banda.

Durante essa época, entre 1970 e 1974, eles apenas gravaram algumas fitas demos que eram apresentadas para gravadoras, produtores e empresários, porém elas foram, durante um bom tempo, apenas recordações de bons momentos e nostalgia para seus componentes. Um dia, em meados dos anos 90, Einar Bruu, baixista, voltou a ouvir aquelas fitas e se surpreendeu com a qualidade das canções. Depois disso ele contatou todos os antigos companheiros para fazerem alguns shows em bares e ensaiar para bancar a gravação de um disco. Todos toparam menos Jan Ødegård. Assim a formação que gravou Underground and Beyond foi: Thore Engen (guitarras e voz), Dag Stenseng (flauta e voz), Anders Sevaldson (flauta e backing vocals), Einar Bruu (baixo) e Kai Frilseth (bateria).

Foto do Lucifer Was na década de 70

É difícil rotular o som do Lucifer Was. Eles constam em listas de bandas prog, hard e até heavy metal. Notem que a banda possui dois flautista ocasionando talvez a única banda que tem duelo de flautas à exemplo do que faziam as bandas de hard rock setentista e metal dos anos oitenta com as guitarras. Em muitos casos as flautas e guitarras se revezam na melodia da canção o que também faz com a banda tenha uma sonoridade única, como é o caso de canções como as pesadas “Scrubby Maid” e Teddy’s Sorrow.

Em “Song for Rings” novamente as guitarras dividem a melodia com as flautas folks, que por sinal é o estilo adotado para esse instrumento em praticamente todas as suas intervenções.

Vale lembrar que as músicas foram compostas durante o início dos anos 70 e a gravação ocorreu em 1997. Assim a sonoridade é um pouco diferente das bandas setentistas devido aos instrumentos, efeitos e gravações modernas que foram utilizadas, mas o clima da época das composições está todo lá. Seria interessante que as fitas demos que foram guardadas por Einar Bruu fossem lançadas à critério de curiosidade como bônus do disco.

“Out of the Blue” tem uma levada bem cadenciada e a melodia de flautas com acompanhamento da guitarra casou perfeitamente. No Lucifer Was não é comum a utilização de uma base de guitarra para acompanhar a principal, mas o expediente foi utilizado nessa canção, como também em “Light My Cigarette”. As músicas no geral são curtas, fugindo um pouco das característica da época. A mais longa é “The Green Pearl” com seus pouco mais de seis minutos. É Black Sabbath puro. Basta você imaginar que Tony Iommi está sendo acompanhado por Ian Anderson – fato que já aconteceu em um curto período em que Iommi abandonou o Sabbath e se juntou ao Jethro Tull. Tem como introdução a sequência de acordes de “The Hall of the Moutain King” do compositor clássico Edvard Hagerup Grieg, que por sinal é conterrâneo dos músicos do Lucifer Was.

Seguindo temos a sombria “Tarabas” que lembra novamente o Black Sabbath, principalmente no riff após o solo. Também em “Tarabas” Thore Engen canta de uma forma que poderia ser definido como um pré-gutural, diferente do modo que cantou em outras do álbum. Com “Fandango” voltamos clima que todo fã de classic rock e hard rock setentista adora, o mesmo acontecendo em “Asterix”, que fecha o álbum. “Fandango” tem a guitarra sem distorção apenas acompanhando as vozes, que por sinal fazem um ótimo trabalho nessa canção tanto nas estrofes quanto no excelente refrão. Temos também dois solos de flautas que caracterizam os duelos citados anteriormente. Forte candidata à melhor do álbum.

O peso volta em “The Meaning of the Life” com um riff pegajoso e um acompanhamento bem simples nas estrofes. O riff é acompanhado nota por nota pela flauta dando uma sonoridade bem característica para a banda. “In The Park” tem um início que parece alguma banda da NWOBHM ou até mesmo de uma banda de Thrash Metal da Bay Área, mas depois volta para o habitual, apenas mantendo o peso da guitarra em um ótimo riff sabbathiano. Para essa música o solo de flauta é acompanhado por uma guitarra sem distorção, apenas com um pouco de efeito. Porém quando a guitarra faz o solo a distorção volta com tudo.

Foto (não tão) atual da banda que excursiona hoje

A capa sinistra de Underground and Beyond não é clara, mas parece um anjo à frente da entrada de um túnel. Lembra muito as imagens de capas e fotos atuais das bandas de black metal norueguesas.

Depois do relativo sucesso do lançamento desse disco eles fecharam contrato com a Record Heaven e gravaram em 2000 o segundo álbum chamado In Anadi’s Bower, porém com Anders Sevaldson deixando a banda durante as gravações. Quatro anos depois foi a vez de Dag Stenseng abandonar o barco durante as gravações de um álbum, o terceiro, chamado Blues From Hellah, que foi seguido por The Divine Tree em 2007 e The Crown of Creation em 2010.

Na ordem: In Anadi's Bower, Blues Frem Hellah, The Divine Tree e The Crown Creation

A formação desde 1997 sofreu diversas mudanças e hoje excursiona com nove integrantes (quatro deles convidados), sendo apenas Thore Engen e Einar Bruu remanescentes. A partir do segundo disco a voz ficou a cargo de Jon Ruder, um vocalista com mais recursos que Thore Engen. Essa adição de vários músicos, inclusive de Jon Ruder, ampliou os horizontes dessa banda que no início poderia ser definida apenas como uma mistura de Black Sabbath com Jethro Tull, hoje é bem mais difícil definir. The Crown of Creation, por exemplo, tem adição de mellotron, violinos, teclados marcantes e até uma orquestra completa utilizada em estúdio (a Kristiansand Symphony Orchestra), que faz juz à opinião daqueles que os definem como uma banda de progressivo. Assim, com cinco discos gravados até então, temos uma discografia completa gravada durante os últimos treze/quatorze anos de uma banda que ficou hibernada no severo inverno norueguês durante mais de vinte anos.

Vale muita a pena ir atrás....

Friday, March 04, 2011

Spock's Beard - Snow [2002]


Após cinco ótimos discos o quinteto resolveu lançar seu mais audacioso disco e, como todos sabem, no rock progressivo isso significa muito trabalho, longa duração e, de preferência, um conceito a ser explorado durante todo o álbum. Assim sendo, a história concebida para ser contada é a de um rapaz de cidade pequena, que vai viver em uma das maiores cidades do mundo, Nova York. O álbum conta a história desse rapaz e de suas experiências na cidade. Logo após o lançamento do disco o vocalista do grupo resolveu que seu caminho devia ser trilhado sozinho e deixou seus antigos companheiros. No seu lugar, ao invés de trazer alguém de fora resolveram com uma solução caseira; promover o cara que normalmente menos aparece no palco a líder da banda, isto é, o baterista resolveu cantar.

Essa história é muito conhecida dos fãs de progressivo dos anos 70. O Genesis havia lançado alguns ótimos álbuns e logo após The Lamb Lies Down On Broadway, o lendário Peter Gabriel resolveu sair para uma boa carreira solo, deixando o posto para Phil Collins. Porém, essa história também serve para descrever exatamente do mesmo jeito a história de um outro grupo progressivo, o Spock’s Beard. Após cinco álbuns e já tendo conquistado certo espaço entre os fãs do estilo, seu vocalista, que também tocava algumas partes de teclado, Neal Morse, “encontrou Deus” logo após a gravação de Snow e resolveu sair da banda. Para o seu lugar como cantor foi escolhido Nick D’Virgilio, então baterista do próprio Spock’s Beard, que ainda conta com Alan Morse (guitarra), Ryo Okumoto (teclado) e Dave Meros (baixo).

Formação na gravação de Snow: Dave Meros,
Nick D' Virgilio, Ryo Okumoto, Neal Morse e Alan Morse
Com a saída de Neal Morse a banda continuou com sua sonoridade vinculada ao progressivo, mas agora de uma maneira mais acessível, seguindo a linha de bandas como Marillion e The Flower Kings. Os discos continuaram muito bons, em especial X, de 2010. Mas este artigo tem a intenção de falar sobre esse que para muitos é o melhor disco da banda, e que também sofreu diversas críticas que serão citadas no decorrer do texto.

Antes gostaria de falar um pouco da história que é contada ao longo do disco. Como resumido anteriormente, é a história de um garoto de uma cidade pequena que vai para Nova York. Porém, esse rapaz possui algumas características em especial. Ele nasceu dentro de uma família de trabalhadores rurais que tinham apenas o trabalho e a religião como ocupação. Porém, mesmo com poucos afazeres, e muito devido a isso também, é difícil para ele conviver com as pessoas da sua comunidade, de se envolver e se relacionar. Muito disso se deve ao fato de ele ser albino, fazendo com que as pessoas que o conhecem passassem a chamá-lo de Snow (neve) – “the working man's son, with skin like white lightning, and eyes like two shots from a gun”.

Para aumentar ainda mais seu isolamento entre as pessoas com que vive, ele possui o dom especial de saber o que as pessoas sentem. Assim ele conhece todas as mentiras e as indecências das pessoas. Porém, ele guarda esse segredo até se tornar um adolescente.

Após uma experiência espiritual, cuja natureza não fica clara no decorrer do álbum, ele decide deixar sua família para ir à Nova York, afinal é para lá que todo mundo quer ir. Então ele começa a passear pela cidade, olhando, checando, avaliando tudo e todos com os olhos inocentes de um garoto que nunca tinha estado em um lugar como esse e tinha poucas experiências realmente interessante na vida.

Nessas suas andanças ele conhece um rapaz, que na história é chamado de Harlem Knight, um garoto negro que o leva para um show de strip tease. Nesse momento descobre-se que Snow também tem poderes de cura. Knight e Snow começam a curar e converter pessoas de má índole que habitam a cidade. Os dois então criam uma organização chamada “The Touch That Heals”. Passam-se dois anos com as coisas indo muito bem e Snow se torna cada vez mais famoso, chegando à capa da revista Time. Porém, com o sucesso, seu ego começa a atrapalhá-lo.

No disco dois a história conta que ele conhece uma garota chamada Carie, que muda toda sua vida, fazendo-o cair em profunda depressão. Mas seu poder de ver os desejos das pessoas não o ajuda com Carie. Na verdade não é dito na história que seus poderes não funcionam com Carie, mas isso fica implícito. Porém, esse detalhe é utilizado por aqueles que julgam que a história do álbum é fraca. Na visão dessas pessoas, essa é uma informação importante e deveria ficar clara, ou então há um erro de continuidade da história. Mas seguindo o enredo, certo dia ele toca Carie, cai em transe e se vê andando nas ruas da cidade, bêbado e à beira da morte. Tendo essa visão, sua vida começa a desmoronar e Snow perde todo o respeito que tem das outras pessoas. A visão se torna realidade.

O final da história é um pouco confuso, com seu amigo Knight levando-o para um hospital, onde Snow volta à vida. Não sabemos se ele curou-se sozinho ou se foi Deus que assim o fez. Na verdade, tenho a impressão que Neal Morse deixou essa lacuna para que o ouvinte tire suas próprias conclusões. A parte engraçada é que, durante a história, Snow vai assistir a um show do Spock’s Beard, fato relatado na canção chamada “Ladies and Gentlemen, Mister Ryo Okumoto on the Keybords”.
Esse é um resumo da história contada ao longo dos dois discos de Snow. As convicções religiosas de Morse já se mostram bem claras em algumas passagens. É uma boa história? Cada um deve ter seu próprio julgamento. As críticas que li baseiam-se na opinião de que é pouca história para um disco tão longo. Eu acho interessante e considero o conceito desse álbum como uma mistura de The Lamb Lies Down on Broadway (Genesis) com Tommy (The Who).

Na parte musical temos um excelente disco com várias músicas de destaque. O primeiro CD é visivelmente superior ao segundo, mas sempre que ouço o álbum tento fazê-lo por completo, e após um longo tempo é natural que a concentração se perca. Tenho que ouvir mais vezes só o segundo CD para absorvê-lo melhor. Também temos o fato de que ao longo do álbum diversas passagens musicais são repetidas, trazendo unidade para o álbum em si, mas isso acaba fazendo com que algumas passagens do segundo álbum já não sejam novidade, apesar de muito boas. Esse é um tipo de expediente muito utilizado pelas bandas de progressivo em álbuns conceituais.

Os maiores destaques do disco são: “Stranger in a Strange Land”, “Welcome to NYC”, a linda “Open Wide the Flood Gates” e “All Is Vanity”. Também há duas Overtures na abertura de cada CD que são excelentes, iniciando perfeitamente ambos os discos.

Formação atual: sem Neal Morse
Mas o destaque maior vai para “Long Time Suffering”. Conheci a banda por meio dessa canção, em meados de 2003, e tinha a intenção de escrever esse texto como uma matéria para a coluna do Mairon Machado, “Maravilhas do Mundo Prog”. Ela não é longa como todas as músicas citadas na coluna, mas é maravilhosa. Seu instrumental no início lembra fortemente algumas canções de Yes e Emerson, Lake and Palmer, mas se engana quem acha que vai encontrar nessa faixa apenas viagens sonoras. A frase de guitarra no início é de emocionar qualquer um. Harmonia, melodia e emoção dosadas perfeitamente com um certo apelo pop que poderia até tocar nas rádios, inclusive possuindo um grande refrão. Esse é o tipo de música que qualquer um vai gostar, independente de que subestilo do rock a pessoa aprecie, e ouso dizer que em muitas músicas o Spock's Beard consegue isso. Há uma mudança no andamento, mas sem ser brusca como costuma acontecer no progressivo, um solo com perceptível improviso, com um efeito não usual, e uma seção de voz a cappela nos moldes do que o Gentle Giant fez maravilhosamente nos anos 70, com várias vozes cantando coisas diferentes. Até agora, para mim, é a melhor música dessa banda que possui diversas ótimas canções distribuídas em todos os seus dez álbuns.


A barba de Spock (Spock's Beard)
É uma pena saber que, depois de um lançamento tão bom, a banda se separou, ainda mais por questões religiosas que não deviam ser entraves para nenhuma forma de arte. Neal Morse lançou, após um tempo, alguns discos solo não tão bons, contendo apenas alguns momentos interessantes, mas participou (e ainda participa) do Transatlantic, supergrupo do progressivo atual, que conta com Mike Portnoy (bateria, Dream Theater), Pete Trewavas (baixo, Marillion) e Roine Stolt (guitarra, The Flower Kings). O Spock’s Beard, como já disse, teve alguns outros discos que fazem juz ao material antigo e não comprometem a carreira que se seguiu. Juntamente com o Porcupine Tree o grupo lidera a onda do rock progressivo atual. Vale a pena dar uma chance para a banda.

Monday, February 28, 2011

Uma introdução ao Rock Progressivo Italiano - Parte II


Depois de ter indicado cinco álbuns para se iniciar no rock progressivo italiano, apresento esta segunda parte com mais cinco discos importantes e bastante representativos do estilo. O critério utilizado para a escolha dessas obras será apresentado no decorrer do texto. Porém, com o intuito de adicionar informações contidas na primeira parte serão citadas mais algumas características próprias da cena e das bandas italianas. Para quem não leu a primeira parte clique aqui.

A Itália no começo dos anos 70 era um caldeirão efervescente de músicos, idéias e, como comentado anteriormente, de divergências políticas. Os partidos de esquerda estavam se levantando contra os de situação e havia muitas manifestações pelas ruas. Alguns desses partidos organizavam comícios, e uma forma de atrair público, especialmente o público jovem, era o de contar com apresentações musicais. Esses comícios duravam horas, e se pareciam muito com os festivais. A diferença é que no lugar de algumas bandas existiam discursos. Com isso muitos desses músicos acabaram sendo relacionadas à certos partidos, mesmo quando não partilhavam dos mesmos conceitos. A intenção dos grupos era estar presente, e o espaço oferecido não podia ser desprezado.

Bandas de outros países se apresentavam frequentemente na Itália, como o King Crimson, que certa vez literalmente fugiu do palco por causa de manifestantes políticos, e o Van der Graaf Generator. Essa última tinha um sucesso tão grande na Itália que teve o seu disco Pawn Hearts (1971) figurando na primeira colocação da parada italiana durante muitas semanas, além do fato de seu líder, Peter Hammil, ser tratado com extrema adoração pelos italianos. É realmente surpreendente conhecermos essas informações, afinal nem mesmo na Inglaterra isso era possível. Algumas bandas faziam mais turnês na Itália do que na Inglaterra ou qualquer outro país simplesmente porque seus shows na península itálica lotavam, diferente do seu país natal.

As bandas italianas tinham o costume de utilizarem mais de um tipo de teclado na mesma música e durante os discos. Além do mellotron, do hammond, do moog e outros, o piano e o órgão também eram empregados a serviço da criatividade dos músicos, muitos deles multiinstrumentistas. Era normal o baterista ir para o teclado, ou para algum instrumento de sopro, e o mesmo acontecia com guitarrista, baixista, etc. As guitarras como são usadas no rock não eram tão evidentes, sendo substituídas pelo violão ou mesmo pela própria guitarra sem efeito algum. Cabe aqui comentar sobre a utilização das flautas. Todas as bandas que utilizam esse instrumento são logo relacionadas com o Jethro Tull, mesmo que seu som não seja em nada parecido com eles. Depois de ouvir o RPI essa associação acaba. Já que quase todas as bandas fazem uso das flautas, assim como de vários outros instrumentos de sopro.

A cena italiana era tão grande na época que talvez esse seja exatamente o motivo de seu rápido declínio. Com um grande número de bandas lançando material, outras estrangeiras fazendo shows e também lançando discos, os italianos tinham que fazer um esforço enorme para conseguirem um lugar ao sol. O público do país também tinha que fazer um esforço tremendo, principalmente financeiro, para ficar por dentro das novidades. Imagine-se um fã de rock progressivo no começo dos anos setenta com os mesmos interesses que você tem hoje. Ou seja, você gosta de várias bandas inglesas além das italianas, eventualmente algumas alemães e uma francesa. Com todos esses grupos lançando discos uma vez ao ano, imagine a grana que você teria que gastar para adquirir e ouvir tudo isso. Temos que ter em mente que na época nem fitas cassete existiam, então se você fosse escutar algo tinha que ser do LP ou das rádios. Bandas novas dificilmente tocavam nas rádios, e, além do mais, o início da década de 70 foi talvez a época mais prolífica da história do rock em geral. Concluindo, para uma banda nova era muito difícil conseguir gravar um disco, e muito mais difícil ainda conseguir ganhar dinheiro com isso.

Então, finalizando essa introdução e considerando o parágrafo anterior, cito agora cinco discos de bandas que por todos os motivos descritos acima lançaram apenas um álbum durante o período de ouro do RPI. Falo desse período porque algumas delas até lançaram um segundo álbum depois de muitos anos, mas isso se deve ao sucesso tardio que essas obras tiveram, fazendo com que os músicos se reunissem novamente para fazer alguns shows para prestar tributo a esses discos e eventualmente gravar um novo. Algumas dessas reuniões, que ocorreram somente a partir dos anos 90, foram feitas ainda com poucos componentes originais. Menção honrosa ao Alphataurus e ao Campo Di Marte que lançaram em 1973 discos homônimos, mas como tinha que escolher apenas cinco discos, esses tiveram que ficar de fora. 


Biglieto Per l'Inferno – Biglieto Per l'Inferno [1974]

Bastante diverso o universo sonoro do Biglieto Per l'Inferno, que significa "bilhete para o inferno". Apesar do nome, não têm ligação alguma com o lado do mal, tendo sua letras relacionados a temas sociais e psicológicos. Musicalmente eles vão da calmaria para a tempestade em poucos segundos, mas de uma maneira tão natural que impressiona, assim como a habilidade musical dos componentes. Eles chegaram a gravar um segundo álbum em 1975 chamado Il Tempo Della Semina, mas que não foi lançado na época, saindo em CD apenas em 1992. A curiosidade é que, após a separação em 1975, Claudio Canalli, voz e flauta, foi viver como um monge em um monastério na região da Toscana. Como muitas bandas, eles retornaram há poucos anos, com uma formação de nove (!) componentes, sem Claudio Canalli, e estão fazendo alguns shows, gravaram um álbum ao vivo em 2005 e um terceiro álbum Tra l'Assurdo e La Ragione (2009).


Buon Vecchio Charlie – Buon Vecchio Charlie [1972]

A banda se separou logo após a gravação do disco, certamente por falta de apoio para a promoção do álbum. Todos os componentes continuaram carreiras artísticas, sendo que três deles, Luigi Calabrò (guitarra), Rino Sangiorgio (bateria) e Paolo Damiani (baixo) formaram o Bauhaus (não confundir com o grupo britânico de gothic rock) que abusava ainda mais da influência de Miles Davis que já aparecia ao longo de todo esse álbum. O disco inicia com "Venite Giù Al Fiume" usando uma melodia já utilizada por Lucifer's Friend e Helloween de um clássico da música erudita chamado "In the Hall of the Mountain King", de Edward Grieg, que prepara para uma jam muito interessante. "All'Uomo Che Racccoglie I Cartoni" tem tantas mudanças de andamento que pode confundir um ouvinte menos interessado e acostumado, mas após algumas audições o prazer é garantido.


Semíramis – Dedicato a Frazz [1973]

O título desse disco, que significa "dedicado à loucura", descreve muito bem o som que sai das caixas de som ou dos fones de ouvido, dependendo de como você costuma ouvir suas músicas. O uso de instrumentos variados é a tônica do álbum, sendo que o que mais chama atenção é o xilofone, além dos sintetizadores, como por exemplo na faixa "Uno Zoo di Vetro". Quando descobri que foi gravado por adolescentes e que Michele Zarillo, guitarrista e vocalista, na época tinha apenas dezesseis anos, fiquei impressionado. "Per Una Strada Affollata" tem uma passagem de guitarra, baixo e sintetizadores muito legal, fazendo com que você torça para que a música não acabe nunca. Mas os dois maiores destaques são "Dietro Una Porta di Carta" e "Frazz". Porém, esse é um álbum difícil de assimilar. É preciso um pouco de insistência para isso. É bom estar bem habituado à sonoridade do estilo.


Maxophone – Maxophone [1975]

A banda foi formada em 1972, mas só conseguiram lançar esse disco três anos depois, já estando o grupo dissolvido. Foi também gravado em inglês, mas nunca ouvi essa versão. O disco inicia e você tem a impressão de que pegou um disco de algum pianista clássico até a entrada das guitarras distorcidas, mas logo depois a música volta à calmaria novamente com Alberto Ravasini cantando com o piano ao fundo e à medida que o tempo vai passando os outros instrumentos vão ficando mais nítidos em uma das canções mais bonitas do RPI, "C'è Un Paese Al Mondo". "Fase" tem uma introdução que lembra as bandas de hard rock do fim dos anos sessenta com um riff bem cadenciado, mas não se engane, a faixa, que é instrumental, se torna um jazz rock bem criativo com algumas influências clássicas. A parte das guitarras lembra um disco solo de Jan Akkerman do Focus. O uso de diversos instrumentos é uma constante durante todo o álbum e a impressão que nos dá é que as influência estrangeira é mais evidente na banda do que em outras da Itália. Esse disco rivaliza muitas vezes com o Zarathustra como o melhor disco de prog italiano. Para falar a verdade eu mesmo gosto mais dele.


Museo Rosenbach – Zarathustra [1973]

O Museo Rosenbach é um fenômeno. Mesmo com apenas um disco lançado na época, é uma lenda entre os admiradores do RPI. Esse disco é frequentemente citado como o melhor do gênero e é obrigatório para todos aqueles que se interessam pelo estilo. Zarathustra é um álbum conceitual influenciado por Nietzsche. Foram muito criticados e até perseguidos por acharem que o disco fazia alusão e apoio ao facismo. Como não entendo muito de italiano não posso opinar em relação à isso e ainda não encontrei um "letras traduzidas" do álbum. A capa também é criticada pelo mesmo motivo. Como toda obra muito conhecida e cultuada, sempre aparece alguém para falar mal. Certa vez li que esse disco não passava de rock normal com adição de mellotron, o que é pura bobagem. A faixa de abertura, "Zarathustra" é divida em várias partes e tem muitas características floydianas, que me lembram muito "Atom Heart Mother". No LP a faixa título tomava todo o lado A com seus vinte minutos de duração. Chama a atenção, principalmente em "Della Natura" o trabalho de bateria de Giancarlo Golzi, muito parecido com o que Carl Palmer fazia, com diversas viradas e variações. "Dell‘Eterno Ritorno" apresenta Stefano Lupo Galifi cantando de uma forma agressiva, o que não é normal no RPI. Aos que se interessarem e quiserem adquirir o LP, já adianto que os valores que encontrarão são um pouco salgados. Esse é um caso no qual um relançamento com uma boa remasterização traria felicidade para muita gente.

Wednesday, February 16, 2011

King Diamond - The Eye [1990]



Podemos nos referir a King Diamond como o vocalista com maquiagem demoníaca, que canta em falsete e usa uma cruz feita de ossos como base para seu microfone, ou podemos falar sobre a banda como um todo. Claro que é muito mais representativo falar do vocalista dinamarquês, afinal o grupo leva seu nome artístico, mas acredito que isso diminuiria o trabalho dos outros músicos integrantes, principalmente de um guitarrista fantástico chamado Andy LaRocque. Todos os outros componentes da banda ao longo dos anos foram mudando, mas o cerne do grupo é essa dupla. Antes de falar sobre o disco que é tema deste artigo eu gostaria de deixar registrado o quanto considero Andy LaRoque um guitarrista excelente, porém injustiçado e quase sempre esquecido. Além do seu ótimo trabalho com o King Diamond, Andy também foi membro durante um tempo de outra grande banda, o Death de Chuck Schuldiner, gravando o álbum Individual Thought Patterns.

Andy La Rocque em foto atual de seu site oficial

The Eye é um clássico disco conceitual do King Diamond. Em sua carreira solo, o vocalista deixou de lado o satanismo que era o tema principal de sua ex-banda, o Mercyful Fate, para se dedicar a contar histórias de terror. Apenas dois de todos seus discos solo não são totalmente conceituais, a saber, Fatal Portrait (1996) e The Spider’s Lullabye (1995). Porém, mesmo esses álbuns ainda possuem algumas músicas ligadas entre si.

A história de The Eye gira em torno de um colar conhecido como “O Olho da Bruxa”, ou simplesmente “O Olho”. Esse objeto tem poderes que permitem mostrar o passado para quem o usa e também causar a morte de quem o olhar diretamente. O álbum abre com “The Eye of the Witch” que apresenta ao ouvinte o colar e suas características. A canção foi o único single lançado do disco.

Depois disso temos “The Trial (Chambre Ardente)”, que conta o julgamento de Jeanne Dibasson, uma suposta bruxa. O tribunal é comandado por Nicholas de La Reymie, chefe da Chambre Ardente, ou Câmara Ardente, que nada mais é que o órgão da Inquisição Francesa. A música na verdade é um diálogo entre o investigador e a mulher. O clima da canção, com seu riff pesado e arrastado, combina perfeitamente com o diálogo e os eventos que ocorriam realmente nesse tipo de caso de suspeita de bruxaria. No álbum todos os nomes dos personagens que são apresentados são descritos como reais, como mostra o texto, traduzido, abaixo:

“As partes principais das histórias narradas
neste álbum são, infelizmente, verdadeiras
e ocorreram durante a inquisição francesa,
entre 1450 e 1670. Todos os personagens seguintes
são reais e pertencentes àquela época.”

Como todos sabem, esses julgamentos na época praticamente tinham um fim certo, a execução da bruxa. É o que descreve a música seguinte. Com seu sugestivo título, “Burn”, conhecemos então o destino de Jeanne Dibasson, o mesmo destino de diversas pessoas durante o período de inquisição na Europa. Uma particularidade da Inquisição Francesa é que, diferentemente da Espanhola e da Portuguesa, quem fazia a investigação eram juízes de direito. Depois de julgada, aí sim a pessoa era passada para a igreja, a fim de receber sua punição. Mas é claro que isso era apenas uma mera formalidade.

Um representação de um tribunal de inquisição "trabalhando"

“Two Little Girls” faz a conexão entre a história de Jeanne Dibasson com a parte restante do disco. Teclados sinistros acompanham a voz de King Diamond ao narrar a cena de duas meninas que estão brincando em um local onde as bruxas eram queimadas, quando encontram um colar no meio das cinzas. As duas garotas brigam pela posse dele e uma delas, ao olhar fixamente para o objeto, morre. Não há referências a isso, mas é coerente pensar que a garota que ficou com o colar é Madeleine Bavent, personagem central da segunda parte da história, que acontece em um convento em Louviers, que fica no norte da França. A segunda parte da história inicia-se com “Into the Convent” (não confundir com “Into the Coven”, clássico do Mercyful Fate) que conta a história da freira, Madeleine, que era forçada pelo padre Pierre David, capelão do convento, a participar nua de um ritual chamado por ele de “comunhão”. Em um dos dias do ritual ela resolve colocar o colar e padre David morre ao olhar para ele. “Into the Convent” é musicalmente uma das melhores do álbum, destaque para os guitarristas, que detonam nessa música.

O convento não pode ficar sem um capelão, então padre Mathurin Picard (ou “Father Picard”, nome da faixa) é o novo encarregado. Rapidamente ele escolhe quatro freiras que vão participar com ele de uma “comunhão” (sim, novamente a tal comunhão). Mas as freiras começam a ser controladas por padre Picard por meio de um pó branco que ele adiciona no vinho que elas ingerem durante o ritual, deixando-as sem lembranças e sem vontade própria. Na próxima canção, “Behind These Walls”, Madeleine começa a ter alguns flashes e lembrar-se vagamente de alguns acontecimentos dessa comunhão e fica se perguntando o que acontece atrás desses muros do convento.

O Rei Diamante se preparando para um show

O mistério é desvendado na faixa seguinte, “The Meetings”. O que acontece é nada mais nada menos um ritual de sacrifício de recém-nascidos que são crucificados por dois padres e quatro freiras, todos liderados por Picard. Nessa hora nos lembramos do texto em que diz que os eventos contados no álbum são verdadeiros. Sinistro...

Seguindo, temos uma música instrumental chamada “Insinity”. Belo arranjo de violões, acompanhando um solo cheio de melodia e muito bonito. Após acompanhar a história sinistra que estávamos conhecendo, essa música serve para aliviar a tensão da descoberta que tivemos ao saber dos bebês e da crucificação. Também prepara o ouvinte para o desfecho da história. Todos os que participavam dos rituais foram presos, é o que conta “1642 Imprisonment”. O solo no final dessa música é o mais fantástico do disco. Madeleine Bavent, agora presa, sente-se mais livre libertando-se do inferno que era sua vida.

O disco encerra com “The Curse” que tem o objetivo de fechar a história dizendo que o poder do “Olho” vai sempre continuar. Como na primeira faixa a pessoa estava voltando ao passado, podemos dizer que agora ela está retornando ao presente e assim acaba a história deste que é o meu disco preferido do King Diamond. Talvez eu goste dele até mais que dos discos do Mercyful Fate.

O instrumental dos discos do King Diamond são sempre marcantes. Os músicos que o acompanharam ao longo da sua carreira sempre foram de altíssimo nível. Lembro-me de uma entrevista com Mikkey Dee, atual baterista do Motörhead, dizendo que era muito exigido nos shows devido à intensa variação rítmica e à dificuldade de execução das músicas quando era baterista do King Diamond.

Pete Blakk, Hal Patino, King Diamond, Snowy Shaw e Andy La Rocque

Acompanhavam King Diamond na época, além de Andy LaRocque, Pete Blakk na outra guitarra, Hal Patino no baixo e Snowy Shaw na bateria. O baixista acompanhou a carreira de King Diamond ao longo desses anos, ficando fora apenas durante sua saída no fim de 1990 até 2000. Snowy Shaw tocou em várias bandas ao longo dos anos 90, entre elas Memento Mori, Dream Evil e Mercyful Fate, mas o curioso é que de um tempo para cá ele deixou as baquetas para se dedicar aos vocais, além de também tocar guitarra eventualmente. Em 2006 ele gravou o álbum Gothic Kabbalah, da banda Therion. Em agosto de 2010 ele foi anunciado no Dimmu Borgir, mas um dia depois voltou para o Therion. Pete Blakk saiu logo após gravar esse álbum por problemas com drogas e hoje tem uma banda com Hal Patino chamada Disaster Peace.

Contracapa do album

Adquiri esse disco por volta de janeiro de 1992. Na época tinha treze anos de idade e aquela imagem da contra capa com uma mulher sendo queimada viva me deixava vidrado. Sempre tive prazer em ler desde pequeno. Comecei a ler livros com a famosa “Coleção Vagalume”, e imagino que muitos iniciaram com eles também. Então, depois de adquirir esse disco, ir traduzindo-o aos poucos e conseguir entender um pouco da história, a palavra “inquisição” ficou gravada na minha mente. Li tudo o que encontrei sobre o assunto e hoje em dia a época da história que mais me agrada é a Idade Média, certamente influenciado por tudo isso.

Monday, February 14, 2011

Uma Introdução ao Rock Progressivo Italiano


O chamado rock progressivo ficou conhecido mundialmente a partir de inúmeras bandas clássicas como Yes, Genesis, King Crimson, Pink Floyd, Gentle Giant, Van der Graaf Generator, Emerson Lake and Palmer e muitas outras. Quando se fala em rock progressivo é muito provável que essas bandas citadas sejam as primeiras que venham à mente de todos, exceção feita apenas entre aqueles que sentem orgulho de só gostar de grupos obscuros. Porém, além do reconhecimento, esses nomes citados têm outro ponto em comum, a sua nacionalidade britânica.

É inegável que o rock progressivo da Grã-Bretanha seja o mais conhecido entre todos os amantes do estilo, uma vez que os medalhões são todos de lá. Isso também acontece com muitos dos subgêneros do rock. Porém a palavra que usei foi “conhecido”, pois para uma parcela dos fãs a vertente preferida vem de outro país, a Itália. Se existiu alguma outra nação que pôde na época confrontar os ingleses em termos de número e qualidade de bandas de rock progressivo, esses eram os italianos.

No final dos anos 60 a Itália ainda não tinha tradição dentro do rock em geral. O clima político no país era pesado, já que a influência da ala esquerdista nos assuntos internos estava se tornando muito grande. Alguns grupos extremistas foram responsáveis por uma série de violentos ataques e desordem, em um período que ficou conhecido como “Anni di Piombo”, ou Anos de Chumbo. Essa turbulência política teve influências nos direcionamentos artísticos de diversas áreas. Os jovens estavam desejando mudanças e esse desejo atingiu dos compositores populares até alguns estudantes de conservatório, para ficarmos apenas na seara musical. O rock foi absorvido à cultura do país e logo se tornou símbolo de protesto do mesmo modo que aconteceu em diversos outros países.

Aqueles que começarem a ouvir o rock progressivo italiano vão perceber logo no início que o estilo é cheio de nuances e peculiaridades e, no fim das contas, que a música desses grupos é o resultado de música clássica tocada como rock, diferente das bandas inglesas, como o Yes, que faziam o contrário, ou seja, tocavam rock à moda da música clássica. Outro modo de dizer é que na Itália foi o rock que influenciou o clássico e não o contrário. Outro ponto característico é o fato da música ter um grande caráter nacional, com elementos barrocos e também uma enorme influência das óperas.

Na primeira audição o ouvinte não acostumado notará imediatamente outra peculiaridade, o idioma italiano. Sempre quando apresento alguma banda de RPI para alguém, a questão da língua é a primeira a ser comentada. Todos os fãs de rock estão habituados ao inglês e muitos não escutam música em outras línguas. Comparações como “não há samba em alemão ou japonês, do mesmo modo que rock tem que ser em inglês” são muito comuns. Para aqueles mais bitolados, talvez esta seja a maior barreira a ser vencida para se tornar um ouvinte do prog italiano, mas um pouquinho de cabeça aberta vai ajudar a vencer todos esses obstáculos.

Este texto é endereçado para aqueles que ainda não são familiarizados com o gênero. A ideia é ajudar o interessado a conhecer e saber por onde iniciar. E nada melhor do que começar pelas bandas mais importantes. Afinal, elas são importantes acima de tudo pela sua qualidade musical. Dentre os inúmeros grupos desse país existem três que podem ser chamadas de “a santíssima trindade do rock progressivo italiano”, do mesmo jeito que o Deep Purple, o Led Zeppelin e Black Sabbath são frequentemente conhecidas como a “santíssima trindade do rock”. Essas bandas são: Premiata Forneria Marconi, Banco Del Mutuo Soccorso e Le Orme.

Nesta primeira oportunidade para falar a respeito do assunto, listarei cinco álbuns dessas três grandes bandas que serão um ótimo cartão de visitas para essa vertente musical tão importante. No futuro poderemos enveredar por outros caminhos, outras bandas menos conhecidas, porém também importantes, além daquelas mais obscuras que fazem a cabeça de todo entusiasta. Não posso deixar de falar que a intenção não é listar os cinco melhores discos do estilo e sim bons álbuns para iniciar-se, conhecer as bandas e certamente começar a se aprofundar. Espero que essas dicas sejam aceitas por muitos e já aviso, esse é um caminho sem volta, uma vez fã não há como deixar de sê-lo.


Premiata Forneria Marconi – Storia de Um Minuto [1972]

Esse foi o primeiro álbum que escutei de RPI. Foi um enorme choque para mim apesar de na época eu já ouvir muito rock progressivo, mas estava acostumado com os discos dos medalhões britânicos. A sonoridade, o som focado mais nas melodias do que em riffs, os silêncios no meio da música e principalmente a voz foi o que me chamou a atenção. Mesmo estranhando, em um primeiro momento é impossível não reconhecer a boa música feita pela banda. “Impressione di Settembre” é talvez a música que define o progressivo italiano com suas viagens de mellotron. “Dove...Quando... (Parte 1)” é mais leve e calma enquanto “Dove...Quando...(Parte 2)” é totalmente jazzística da mesma forma que "Grazie Davvero", que é a música mais difícil de se ouvir num primeiro momento. “É Festa” lembra um pouco “Hocus Pocus” dos holandeses do Focus. E para quem gosta de King Crimson e Genesis do início de suas carreiras vai gostar de “La Carrozza Di Hans". Excelente disco para começar a jornada no RPI.


Le Orme – Felona e Sorona [1973]

Álbum conceitual sobre dois planetas gêmeos Felona e Sorona que ficam nos extremos do cosmos para manter o equilíbrio do universo. Viagem? Pode ser, mas a viagem musical que ajuda a contar essa história é o que vale a pena. O trio é baseado nos teclados fazendo as comparações com o ELP um tanto óbvias. Até a presença das guitarras é utilizada em poucas passagens, assim como nos discos dos ingleses. O final do disco tem um gran finale maravilhoso. Talvez o som do disco pudesse ser um pouco melhor. Às vezes parece que ele é magrinho, mas é perceptível que trata-se nada mais do que falta de uma gravação, uma produção ou até de um estúdio melhores. Mas isso não atrapalha a audição dessa que é uma das obras primas do RPI. Esse disco foi também regravado em uma versão em inglês (Felona and Sorona) e o responsável pela tradução e adaptação foi nada menos que Peter Hammil do Van der Graaf Generator, que na época era tratado como messias na Itália. Porém, se você puder escolher, ouça na língua original. A versão em inglês não ficou tão boa quanto a italiana.


Banco Del Mutuo Soccorso – Darwin [1972]

Já li um crítico falar que encontra nesse álbum a melhor mistura entre a complexidade e beleza musical. Dentre as três bandas citadas aqui, essa é a que menos gosto, e para ser sincero é a que menos conheço também. Por outro lado, considero esse disco o melhor já feito no estilo. Eu falei que “Impressione di Settembre” do PFM define o estilo, mas “L’Evoluzione” é provavelmente a melhor música feita por uma banda italiana entre todos os estilos. Quase 14 minutos de teclados maravilhosos, guitarras delirantes e a voz fantástica de Francesco DiGiacomo. Falando dos teclados, podemos identificar um pouco de Emerson Lake and Palmer em algumas passagens, mas a originalidade da banda é notável, estão longe de ser meras cópias. Escutem “750.000 Anni Fa....L’Amore” e “Miserere Allá Storia” e se deliciem com a dramaticidade da voz e percebam porque eu disse no início do texto que as bandas italianas têm influencia de ópera. Disco fantástico, mas se alguém se interessou e nunca ouviu o RPI sugiro começar por algum dos discos do PFM e aí sim ouvir esse.


Premiata Forneria Marconi – Per Un Amico [1972]

Esse disco, junto ao Storia Di Un Minuto e L’Isolda Di Niente são os preferidos dos fãs do Premiata Forneria Marconi. Possui uma variação que vai dos violões acústicos e guitarras limpas a passagens pesadas de mellotron, isso sem esquecer das flautas, pianos, violinos e outros instrumentos. Aliás, é uma característica de várias bandas no RPI o fato de seus integrantes serem multiinstrumentistas. Foi lançado no mesmo ano que Storia Di Un Minuto e é mais complexo que este primeiro. “Apenna Un Po” tem influências claras de Emerson Lake and Palmer e Gentle Giant enquanto “Il Banchetto” assemelha-se muito aos trabalhos de voz de Crosby, Stills, Nash and Young. Um ano depois eles regravaram algumas músicas desse álbum juntamente com algumas do primeiro para o álbum Photos of Ghosts, cuja tradução foi feita por Peter Sinfield, que na época era letrista do King Crimson. Porém, não se trata de apenas uma simples tradução, mas de praticamente uma nova criação, matando o espírito das músicas segundo alguns. Na audição dessas músicas em inglês chama a atenção o sotaque carregado na interpretação dos italianos.


Le Orme – Elementi [2001]

Depois de muitos anos parados, a banda voltou em 1996 com um disco fraco chamado Il Fiume, mas em 2001 eles gravaram um disco que certamente faz jus ao material lançado nos anos 70. Porém, eles não se copiaram ou tentaram manter uma fórmula. Fizeram um disco moderno, com efeitos modernos, mas com o clima dos melhores discos do RPI setentista. Elementi fala dos quatro elementos: água, fogo, terra e ar. As 14 músicas do álbum são divididas em quatro partes, cada uma delas falando de um desses elementos. Cada parte possui uma identidade, mas quando você ouve o disco todo percebe que ele tem uma unidade incrível. Algumas melodias são repetidas em várias músicas apenas com variação do tempo ou ritmo, expediente muito utilizado no progressivo em geral, principalmente em álbuns conceituais. O resultado dessa unidade entre as músicas é certamente proposital, afinal temos que levar em consideração que o disco fala sobre os quatro elementos que, segundo os pesquisadores antigos, eram a base de todas as outras coisas da terra. Então a unidade entre os elementos, e no caso as músicas, deveria ser esperada. Resumindo, é o melhor disco de RPI lançado depois de 1979.

Monday, January 31, 2011

Iron Maiden: Álbuns em edições especiais em LP


Com a popularização do CD no começo da década de 90, o LP começou a sofrer um processo de perda de espaço. Porém, durante algum tempo, os dois tipos de mídias ainda eram vendidos paralelamente, sendo o CD vendido por cerca do dobro do preço do LP, e a diferença de valor entre eles dava uma noção do status que cada uma tinha à época. Afinal, o CD era novidade e vinha com a promessa de melhor qualidade de som. Aqui no Brasil, depois de algum tempo, a produção de LPs foi totalmente abandonada, fazendo com que muita gente focasse o interesse apenas nos CDs.

Mundialmente, o vinil também perdeu espaço, porém, essa diferença não fez com que ele deixasse de ser produzido em alguns países. Algumas bandas internacionais nunca deixaram de lançar seus álbuns em vinil, porém, para chamar a atenção, esses lançamentos tiveram que apresentar algum diferencial.


A Matter of Life And Death

O Iron Maiden, assim como muitas bandas, lançou vários discos de vinil durante os anos 80 com algum tipo de apelo junto aos colecionadores e curiosos, como os picture discs e os shaped discs em seus singles e EPs. Alguns álbuns também foram lançados em vinil colorido e até mesmo alguns em picture, porém essa não era a regra. Os últimos discos “comuns” da banda lançados foram Fear of the Dark (1992), A Real Live One (1993) e A Real Dead One (1993).


Rock in Rio - Edição com bandeira do Brasil estilizada

Na época do lançamento de The X-Factor (1995), primeiro álbum de estúdio sem Bruce Dickinson nos vocais, o CD já tinha tomado conta do mercado. Porém, o álbum também foi lançado em LP, mas aqui se dá o início de uma prática que mudaria o modo dos lançamentos de álbuns em vinil da banda. O álbum é duplo e transparente (ver foto principal da matéria). Nada muito diferente, afinal a banda já tinha lançado alguns vinis transparentes. A diferença é que, nesse caso, não houve o lançamento “normal”, ou seja, essa foi a única versão. O segundo álbum com o Blaze Bayleu nos vocais – Virtual XI (1998) – foi a única exceção para esse novo tipo de lançamento (dizem que é necessário uma exceção para confirmar uma regra).


Virtual XI - O mais fraco até entre os lançamentos especiais

A partir daí, todos os álbuns, tanto os de estúdio quanto os ao vivo e coletâneas, foram lançados também em vinil com edições especiais. Todos esses itens tiveram muito capricho para o seu lançamento. Os LPs são lindos e os encartes são muito bem feitos e aí entra o ponto que eu gostaria de discutir. Será mesmo que quem compra esses itens são aquelas pessoas que querem apenas o vinil? O Iron Maiden sempre foi ótimo na questão comercial, então eu vejo que esse tipo de lançamento é feito essencialmente para os colecionadores, para aqueles caras que não tem só o LP, mas tem também o CD e, possivelmente, em mais de uma versão. Claro que vez ou outra o cara põe o bolachão para tocar, mas duvido que essas pessoas utilizem mais os LPs do que os CDs. Claro que existem os mais aficcionados por LPs, mas mesmo entre os colecionadores a parcela é pequena.



Edward the Great (acima) e Death on The Road - Mesmo
 as coletâneas e os discos ao vivos mereceram uma edição especial

Outro detalhe que tem que ser levado em consideração é o fato de os vinis comportarem apenas cerca de 45 minutos de música. Já os CDs podem armazenar cerca de 74 minutos. Isso quer dizer que uma banda pode gravar quase 30 minutos a mais para os lançamentos de seus CDs. O Iron Maiden, nos útlimos discos, está tendo o costume de utilizar praticamente o tempo todo disponível no CDs e isso exige que todos os LPs lançados sejam duplos, o que não era normal nos lançamentos das bandas nas décadas de 70 e 80. Muitas pessoas dizem que a música atual tem uma qualidade menor, já que os discos se tornaram mais longos e, assim, muita coisa gravada pelas bandas é para ocupar espaço, não havendo a escolha só das partes mais interessantes na hora de composição e finalização das músicas. Mas isso é assunto para outra hora...

Friday, January 21, 2011

Bon Jovi x Skid Row: Amizade, confusão e alta qualidade musical


Em 1982 um rapaz estava batalhando para conseguir ser alguém no mundo da música. Ele conseguiu um emprego no estúdio de gravação que era de propriedade de um primo – na verdade esse primo era apenas um dos sócios do estúdio. O nome do local era Power Stations Studios, que ficava na cidade de Nova York. Trabalhando e tendo a oportunidade de vivenciar o dia a dia de um estúdio ele conseguiu gravar algumas demos, tendo a ajuda de músicos do próprio estúdio, e entregar uma delas para John Lassman que então trabalhava na estação de rádio chamada WAPP 103.5 FM.

Essa história é conhecida por muitos amantes da música, e todos que a conhecem sabe de quem estou falando: Jon Bon Jovi, ou John Bongiovi, seu nome verdadeiro. O que muita gente não sabe é que após o sucesso da canção, a saber "Runaway", Jon iniciou uma procura por membros para uma futura banda, afinal como dito acima os músicos que a gravaram inicialmente eram apenas de estúdio. O guitarrista que inicialmente acompanhou a banda foi Dave Sabo, um antigo amigo de infância de Jon. Pouco tempo depois Sabo foi substituído por Richie Sambora, que já tinha falhado em uma audição para ser guitarrista do Kiss. A saída de Dave "Snake" Sabo foi totalmente amigável inclusive ambos entraram em acordo que se um dia um deles fizesse sucesso ajudaria o outro em futuros projetos.


Jon Bon Jovi no início de carreira
Uma curiosidade em relação a essa época, principalmente para quem é ligado em rock progressivo: o primeiro executivo que notou a banda recém formada foi Derek Shulman, ex-integrante da monstruosa banda Gentle Giant, que já estava extinta na época. Essas músicas chegaram a ser lançadas, a contragosto de Jon, em um CD chamado The Power Station Years.

Capa do CD The Power Station Years
O baixista que gravou “Runaway”, single que foi veiculado nas rádios nova-iorquinas e que deu a chance de sucesso para o cantor, foi Hugh McDonald, o mesmo que mais tarde substituiu Alec Jonh Such, quando este saiu da banda por problemas até hoje debatidos entre os fãs, após o lançamento da coletânea Cross Road. Porém, apesar de sempre creditado nos discos que gravou com a banda, Hugh nunca foi considerado um componente oficial.

Muitos se perguntam por que chamar uma banda com o nome de um dos integrantes, já que a mesma não era um projeto solo. O nome Bon Jovi foi sugerido por uma empregada de Doc McGhee, empresário do grupo, que se baseou numa então famosa banda de dois nomes próprios, o Van Halen.

O Skid Row foi formado alguns anos depois por Dave Sabo e o baixista Rachel Bolan. O nome da banda foi adquirido comercialmente de outro conjunto numa ação inédita até os dias de hoje. O Skid Row original era irlandês e gravou dois álbuns no início da década de 70 e é famoso entre os fãs de Hard Rock setentista pricipalmente por ter tido como integrante o guitarrista Gary Moore, que anos depois integrou o Thin Lizzy. O valor do negócio do nome da banda foi de 35 mil dólares.

Skid Row em sua formação inicial
Quando Sebastian Bach entrou para o Skid Row, o material do primeiro disco estava quase que completamente pronto. Mesmo assim um dia depois de entrar na banda ele tatuou "Youth Gone Wild" em seu braço direito. Isso acaba confundindo muita gente achando que ele teria participado das composições.

O Skid Row assinou com a Atlantic Records e isso se deveu a uma enorme influência que Jon Bon Jovi e seu empresário tinham na gravadora. Eles gravaram o primeiro disco em janeiro de 1989 e logo sairam em turnê com o próprio Bon Jovi na New Jersey World Tour. Ninguem pode negar que isso ajudou a banda a vender boa parte dos milhões de cópias que esse disco vendeu.

Richie Sambora com o Skid Row
Muitos dizem que Jon Bon Jovi deu também uma mãozinha na composição do material do primeiro disco, inclusive uma declaração sua em uma revista dizia: "Por cerca de um ano e meio nós (Jon e Richie) escrevemos músicas com eles, reescrevemos algumas coisas, pagamos por estúdio, por aluguel de carros e tudo o mais que eles precisaram...".

Talvez por tudo isso o Skid Row acabou assinando um contrato com Jon Bon Jovi e Richie Sambora. Esse contrato dava os direitos de publicidades do Skid Row para a dupla. Claro que isso foi uma resposta por todos os favores recebidos. Esses fatos foram revelados depois de uma briga de Sebastian Bach com os outros componentes que acabou com uma rápida saída da banda. Com os nervos inflados ele teria dito para a imprensa sobre esse contrato. Incluse durante esse período fora da banda ele ofereceu seus serviços ao Guns n' Roses que também estavam com problemas com o seu vocalista na época. Isso aconteceu por volta do segundo semestre de 1990.

Em uma entrevista Jon disse que teve que dar um "tapinhas na bunda" de Sebastian quando esse começou a se achar a maior estrela do mundo. Após ficar sabendo dessa declaração Sebastian ligou para a revista e contou diversas coisas. Inclusive que Jon ia conversar com ele apenas quando estava acompanhado de seus irmãos e seus seguranças. E disse também "eu queria que ele conversasse comigo sozinho, afinal se houvesse uma briga quem ganharia, um peso leve fã de Bruce Springsteen ou um peso pesado maníaco por Metallica?".

Jon Bon Jovi e Sebastian Bach ao vivo
O fato é que por mais sucesso que o Skid Row estivesse tendo parecia que eles estavam sempre devendo para o Jon e Richie. Sebastian falou sobre isso também "eles têm 70 milhões na conta e ficam desesperados em pegar 2 milhões extra da gente". O resultado de tudo isso foi que o contrato foi cancelado. Talvez até pela amizade entre Jon e Dave Sabo. Inclusive dizem que Richie devolveu a porcentagem que ele tinha direito para o Skid Row. Sobre a parte que Jon recebeu ninguem sabe...

Essa é uma história de conexão entre duas bandas que teve de tudo: ajuda mútua devido à amizade, briga por dinheiro e por egos e, acima de tudo, muito sucesso musical devido à qualidade das bandas. Creio que não podemos rotular a dupla principal do Bon Jovi de mercenários, afinal tudo isso pode ser culpa dos seus assessores, nada fica claro, mas também não podemos crer que os caras do Skid Row foram inocentes e cairam num golpe, eles sabiam o que estavam fazendo. Ainda existem muitos detalhes entre tudo isso que está sendo contado, porém por falta de espaço não puderam ser incluídas. Quem quiser mais informações pode obter pelo livro “All Night Long...The True Story of Bon Jovi”.

Peço desculpas por algumas fotos, mas foi difícil achar fotos da época com uma boa imagem. Tive que tirar do livro citado.