Friday, May 06, 2011

Opeth - Damnation [2003]


O Opeth é normalmente tido como uma banda de death metal, e seu primeiro álbum, Orchid (1995), arrebatou muitos fãs dessa vertente. Porém, ao longo de sua carreira, a evolução musical da banda foi evidente, e, quando digo evolução, não quero dizer que os músicos aprenderam a tocar melhor e por isso se desligaram do death metal. O que houve foi uma adição de novos elementos ao som da banda, o que lhes trouxe abrangência, um leque musical, muito maior.

Hoje podemos encontrar a banda não só em meio a listas de death, doom e heavy metal, mas também nas listas de prog metal ou simplesmente de progressivo. No site Prog Archives, talvez o maior site do gênero da web, por exemplo, os suecos são classificados como tech/extreme prog metal. Porém, independente do estilo em que você possa enquadrá-los, é impossível não reconhecer o valor do trabalho desses caras.

Confesso que nas primeiras audições de seus discos não fiquei muito impressionado, já que os vocais guturais ficaram muito marcados para mim. Como não sou tão fã desse tipo de voz, não me interessei e nunca mais ouvi a banda. Após a insistência de alguns amigos, voltei a ouvi-la, mas dessa vez através de discos diferentes dos que tinha escutado anteriormente. O álbum que mudou minha opinião sobre a banda foi justamente Damnation, de 2003.

Deliverance: o álbum "irmão"
O registro é uma espécie de “irmão” do pesado Deliverance (2002), que havia sido lançado cinco meses antes. Ambos foram gravados simultaneamente, e a idéia inicial seria que os dois discos fossem apenas um álbum duplo. Até na capa os dois se parecem, já que ambos possuem imagens um tanto borradas. Porém, por serem musicalmente diferentes entre si, a decisão de lançá-los separados foi acertada. Quem ouvi-los sem saber que são da mesma banda pode imaginar estar ouvindo grupos distintos.

O que mais chama a atenção em Damnation, para aqueles que já conhecem o Opeth, é a completa ausência de vocais guturais e o total direcionamento voltado para o progressivo. As influências setentistas são evidentes, mas recebendo uma cara atual. Podemos compará-lo a algum disco do Porcupine Tree ou a 12:5 (2004), do Pain of Salvation, em que Daniel Gildenlöw resolveu apresentar todas as músicas sem peso e de forma acústica. Lembrar de Porcupine Tree é até óbvio quando ficamos sabendo que Steve Wilson, o cabeça da banda, fez a produção tanto para Deliverance como para Damnation. Nesse último, ele ainda atuou como músico convidado, pilotando o mellotron, sendo co-autor de “Death Whispered a Lullaby” (um dos destaques) e fazendo alguns backing vocals.

A formação da época de Damnation, com Mikael Akerfeldt ao centro
Na minha opinião, a melancólica e carregada de acompanhamento de mellotron, “In My Time of Need” contém o melhor refrão e resume muito bem o álbum. Mas é muito difícil citar destaques em um disco tão coeso. O riff principal de “Windowpane”, as diferentes camadas de guitarras de “Death Whispered a Lullaby”, o lindo solo de introdução de “Ending Credits” e os dedilhados em quase todas as músicas vão chamar atenção logo de cara.

Apesar da característica progressiva do álbum como um todo, ele não possui longas canções. A mais longa é a faixa que abre o álbum, “Windowpane” com quase oito minutos de duração. Nos anteriores, Blackwater Park (2001) e Deliverance, e no seguinte, Ghost Reveries (2005), são várias as que passam dos dez minutos.

Mikael Åkerfeldt
Com respeito à falta de vocais guturais, não posso deixar de comentar o ótimo trabalho que Mikael Åkerfeldt fez nesse quesito. Na época, ele afirmou ser um iniciante nesses vocais limpos, mesmo já tendo cantado assim em algumas passagens dos discos anteriores. Claro que, se o resultado não fosse reconhecidamente bom já de antemão, o disco certamente não seria feito dessa maneira.

O Opeth arriscou e obteve êxito. Conseguiu novos fãs de outras vertentes, que não tinham interesse pela banda, e não se queimou com os fãs antigos. Outra coisa que pesa positivamente nessa balança é que, apesar do sucesso, o grupo não virou as costas para sua história, já que no álbum seguinte, Ghost Reveries, voltaram para a fúria sonora a que estavam acostumados. Damnation é altamente indicado para quem gosta de todas as vertentes do rock.

Tuesday, April 19, 2011

Tributo ao Iron Maiden: SESC Porto Velho, 13 de abril de 2011



Quando o pessoal do site Metal RO me informou que estava organizando um show-tributo ao Iron Maiden em parceria com a escola de música Sol Maior, fiquei imaginando se o evento daria certo. Falo isso porque, nos finais de semana quando eventos de heavy metal acontecem aqui em Porto Velho (Rondônia), a presença do público é meio escassa; aliás, como acontece em diversos lugares do Brasil. Porém, nesse caso o que aconteceu foi totalmente o contrário.

Hugo Borges, colaborador do Metal RO e vocalista do projeto, solicitou-me um artigo a respeito das canções que seriam executadas no dia. O texto deveria conter informações sobre as músicas, os álbuns, curiosidades da época e qualquer outro tipo de dado interessante. O conteúdo desse artigo seria utilizado em um folder e também comentado durante os intervalos das músicas. Esse foi o diferencial entre o evento e um show qualquer de uma banda cover: o caráter informativo e de divulgação. Por mais que o Iron Maiden hoje em dia não careça mais de tanta divulgação, muita gente não conhece diversos aspectos da história da banda, emprestando grande validade ao espetáculo.


Muitos conhecem as músicas, apreciam e admiram a banda, mas desconhecem vários assuntos relacionados, mesmo informações mais simples, como de qual disco são determinadas faixas. Muito disso se deve ao modo com o qual as pessoas têm acesso à música hoje em dia. Quando alguém faz o download de um disco, muitas vezes não conhece nem a capa do mesmo. Também existem aqueles que inserem as músicas em uma lista de reprodução enorme, colocam no modo shuflle e ficam escutando. Desse modo, a pessoa acaba conhecendo todas as faixas, mas não a unidade de um álbum. Não consegue identificar a diferença entres as fases e a evolução do grupo ao longo dos anos. Acredito que o evento tenha sido importante não apenas para passar informações, mas também para tentar incentivar esses fãs a se aprofundarem na história que envolve não só o Iron Maiden, mas as bandas em geral.


Como o tributo era para a Donzela de Ferro, perguntei para Hugo se seria adequada uma exposição com material da banda. Tanto ele quanto os outros organizadores gostaram da idéia, então me prontifiquei a fazê-lo. Como colecionador, gosto de conhecer o acervo de outras pessoas, de obter detalhes que normalmente não conseguiria sozinho, conversar sobre os discos e suas particularidades e, principalmente, falar de música. Algumas pessoas enxergam essa intenção de mostrar uma coleção como algo exibicionista, mas quem coleciona e se identifica com tudo aquilo que citei logo acima entende o real motivo disso.


Apesar da falta de espaço e tempo para organizar tudo, acredito que a intenção de tentar incentivar as pessoas a olhar o disco físico como um objeto que vale a pena deu certo. Quando falo “disco” estou me referindo a qualquer mídia que um artista utilize, como CD, LP, compacto, DVD, revistas e memorabília em geral. Não foram poucas as perguntas que respondi a respeito de diversos itens e de como adquirí-los, mas o que mais me chamou a atenção é o fato de que poucas pessoas dessa nova geração tiveram acesso ao LP. Com diversos itens mais interessantes, foi surpreendente a quantidade de pessoas que queriam ver os antigos bolachões. A impressão que dá é a de que esse formato é visto como algo curioso que remete a “épocas distantes”. O modo que os LPs foram admirados me lembrou uma visita de estudantes a um museu com peças da Antiguidade. O espanto era grande quando eles viam que os discos mais recentes também tinham versões em LP.

Público mostrando interesse

Muita gente perguntou se os itens estavam à venda e ficou surpresa pelo fato de alguém ter interesse em colecionar e se dedicar a tudo isso. Mas acho que pelo menos uma semente foi plantada em cada um daqueles que se interessaram pelo acervo. Conheço e sei de diversas coleções muito maiores e mais abrangentes que a minha, mas acho que pelo menos a finalidade da exibição foi atingida.

A banda em ação
 
Não posso deixar de parabenizar a banda que executou todas as músicas com o esmero que os clássicos do Iron Maiden merecem (ouça aqui uma amostra do que foi tocado com "Die With Your Boots On"). O público lotou o teatro do SESC e ficou sentado como se estivesse assistindo a uma peça teatral. Tenho certeza que o objetivo desse evento foi alcançado e abriu oportunidades para que outros mais venham a acontecer.

Friday, April 08, 2011

Review Exclusivo: " Eu vi o Iron Maiden de perto em Belém"


Por Jairo Granado
Revisão e comentários finais por Fernando Bueno

O dia 1º de abril de 2011 ficará marcado na minha vida como o dia no qual realizei um sonho: estive em um show do Iron Maiden. Não foram somente quatro meses de espera, desde o dia em que fiquei cinco horas em pé, em uma madrugada de dezembro, aguardando na frente de um shopping center para comprar o ingresso no primeiro dia de venda. Essa espera ocorre desde 1982, quando, aos sete anos de idade, escutei o disco The Number of the Beast que minha irmã havia comprado.

O Iron Maiden foi e ainda é a trilha sonora da minha vida, mas sempre imaginei que nunca conseguiria vê-los ao vivo. Cresci deitado na frente de um aparelho de som, com os fones de ouvido e lendo os encartes dos discos, imaginando como seria maravilhoso se eu pudesse presenciar um show da minha banda preferida.

Ed Force One, o avião particular do Iron Maiden, pilotado por Bruce Dickinson

Mas esse dia chegou. Eu e meu brother Fernando Bueno chegamos ao local do show antes das 16 horas e a fila já era enorme. Chuva torrencial, todo mundo molhado, mas feliz em estar vivendo esse momento histórico na capital paraense. O único ponto negativo desse dia foi a péssima organização da Bis Promoções e Eventos. Não havia ninguém da produtora para organizar e orientar os fãs, ficamos dentro de uma vala com lama cobrindo nossos tênis e várias pessoas aproveitaram a falta de fiscalização para furarem a fila. Acho que a produtora, acostumada a trazer a Belém os Parangolés e Restarts da vida, deve ter imaginado que headbanger não é gente, só pode ser isso.

Depois de entrarmos no Cidade Folia (local do show), continuava sem acreditar que, dentro de poucas horas, meus ídolos estariam na minha frente. A noite começou com a abertura da banda paraense Stress, pioneiros no metal nacional, que fizeram a galera cantar seus grandes clássicos. O baixista e vocalista Roosevelt Bala estava visivelmente emocionado, fato que eu e Fernando comprovamos quando conversamos com ele no final do show. Grande show e um merecido reconhecimento para o Stress.

Iron Maiden em ação no palco de Belém.

Com poucos minutos de atraso, começou a ecoar a gravação de "Doctor Doctor" do UFO e a galera foi ao delírio, já que todos sabem que essa é a deixa para o início do show. O espetáculo iniciou com a longa introdução da música "Satellite 15... The Final Frontier", e confesso que foi angustiante esperar. Não consegui ver a entrada do Nicko McBrain atrás da bateria, mas de repente surgiram Adrian Smith, Dave Murray, Janick Gers e Steve Harris. Não acreditava naquilo. Estava bem perto de Adrian e Dave e confesso que meu coração quase saiu pela boca. De repente vejo um cidadão correndo, dando um salto e caindo de pé em minha frente. Era Bruce Dickinson, a poucos metros de mim. Até o final da primeira música e durante toda a segunda, "El Dorado", não fiz nada além de olhar para os caras e me perguntar se aquilo realmente estava acontecendo. Para aumentar ainda mais meus batimentos cardíacos, Steve Harris se aproximou e apontou o baixo para frente, como nos vídeos que cresci assistindo.

Ouvir Bruce Dickinson gritando "scream for me Belém" e a banda tocando "2 Minutes to Midnight" foi maravilhoso. O show seguiu com mais duas músicas do disco novo, "The Talisman" e "Coming Home", que serviram para que eu recuperasse o fôlego. "Dance of Death" ao vivo é maravilhosa. O que dizer da sensação em ver Bruce Dickinson com a bandeira do Reino Unido cantando "The Trooper"? O show seguiu com "The Wicker Man" e "Blood Brothers", dedicada por Bruce aos fãs do Japão, como já havia feito em todos os shows após a tragédia em terras nipônicas. A melhor música do disco novo não faltou: "When the Wild Wind Blows". Ainda tivemos "The Evil that Men Do" e "Fear of the Dark", quando eu perdi minha voz definitivamente. Encerraram a primeira parte com a clássica "Iron Maiden", quando outro sonho foi realizado: ver Eddie de perto.

Conferindo o Iron Maiden pela primeira vez

Após uma pequena espera, o bis começou com "The Number of the Beast". Não aguentei e chorei, agradecido por estar vivendo aquele momento. "Hallowed Be Thy Name" foi magnífica e o final com "Running Free" me deu a sensação de estar na gravação do álbum Live After Death (1985).

Esperei 28 anos para ver de perto meus ídolos, e desde o dia do show não paro de pensar em cada momento que vivi naquele 1º de abril. Dia que ficará marcado para sempre na minha vida como um dos momentos mais importantes de todos. Banda perfeita, show perfeito, mas com uma organização que poderia ter sido muito melhor. Quem sabe da próxima vez a produtora aprenda com os erros? Torço por isso. Up the Irons!

Set list:
1. Satellite 15... The Final Frontier
2. El Dorado
3. 2 Minutes to Midnight
4. The Talisman
5. Coming Home
6. Dance of Death
7. The Trooper
8. The Wicker Man
9. Blood Brothers
10. When the Wild Wind Blows
11. The Evil that Men Do
12. Fear of the Dark
13. Iron Maiden

Bis:
14. The Number of the Beast
15. Hallowed Be Thy Name
16. Running Free


Comentários por Fernando Bueno

Quando escolhi Belém para assistir o show dessa turnê brasileira, não havia pensado, nem lembrado, que esse seria a primeira apresentação da banda na cidade paraense. Mesmo na fila - aliás, fila é um modo muito simpático para chamar aquela aglomeração desordenada - fiquei pensando que, se for feito um levantamento de todas cidades do mundo onde o Iron Maiden já tocou, é possível que essa lista seja a mais extensa entre todas as bandas que já fizeram turnês mundiais.

Lista de cidades compreendidas na primeira parte da turnê

Estive no show de 1998 no estacionamento do Anhembi (São Paulo). Quem foi lembra da chuva que caiu durante a apresentação do Helloween. Foi um dilúvio, mas confrontada com a que caiu na sexta feira passada, a chuva de São Paulo é comparável a uma garoa. Não ficaria surpreso se alguém dissesse que quem rotulou São Paulo como a terra da garoa foi um paraense. Os ingleses do Iron Maiden, acostumados ao chá das cinco, foram apresentados à famosa chuva das cinco de Belém.

Achei a escalação do Stress a mais acertada dos últimos tempos para a abertura de bandas importantes em terras brasileiras. Claro que o fato do grupo ser da cidade ajudou, mas acredito que ninguém merecia tanto essa oportunidade. Conversando com Roosevelt Bala após o show, deu para ver que o cara estava muito feliz com o que tinha acabado de ocorrer. É claro que não posso deixar de elogiar a performance da banda, que foi ótima.

Veterano, mas ainda emocionado

O show do Iron Maiden em si não teve surpresas. Hoje em dia nós sabemos previamente a sequência das músicas e que a banda não costuma mudar o set list de show para show. Penso que a apresentação do sexteto é como uma peça de teatro. Tudo programado e roteirizado. A diferença é que a atuação é sempre em altíssimo nível.

Muitos reclamam dessa falta de supresas, no entanto penso que ela é normal. Afinal, mesmo que o Iron Maiden tenha tocado diversas vezes em várias cidades pelo mundo, muita gente que vai a um desses shows está fazendo isso pela primeira vez, como foi o caso do Jairo, e a banda atende perfeitamente a esses fãs. O resultado disso é que o grupo tem uma renovação de fãs invejável em relação a muitos outros artistas.

O material do novo disco, The Final Frontier (2010), ficou ótimo ao vivo. Foram cinco músicas do álbum entre as desesseis que foram executadas. É uma porcentagem grande, mas depois da turnê focada em clássicos dos anos 80, essa escolha em abordar o material mais recente é natural.

Grande show como sempre, e que venham muitos outros!

Saturday, March 19, 2011

Small Faces - Ogdens' Nut Gone Flake [1968]




A psicodelia inglesa veio um pouquinho depois da americana, e foi certamente influenciada por ela, na segunda metade dos anos 60. Fato é que, por volta do ano de 1967 foi o ápice da psicodelia na Inglaterra com o lançamento de discos como o clássico Pet Sounds (1966) do The Beach Boys, o eleito por muito como o melhor disco de todos os tempos Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) dos The Beatles, o controverso Their Satanic Majesties Request (1967) dos Rolling Stones, o album de estréia do Pink Floyd, The Piper at the Gates of Dawn (1967), do blues psicodélico do Cream em Disraeli Gears (1966), só para citar alguns…


O Small Faces também já tinha feito um álbum que marcou a transição do rhythm’n blues para o psicodelismo em Small Faces de 1967, mas foi em Ogdens’ Nut Gone Flake que a coisa pegou (o termo Ogdens’ também é grafado como Ogden’s em diferentes edições do álbum). Cabe aqui um comentário sobre o nome da banda. Em discos, singles e sites diversos encontramos o nome da banda como The Small Faces ou só Small Faces. Sinceramente até hoje não consegui definir o correto e vou usar o nome sem o "The".

Contando com Ronnie Lane (baixo e voz), Steve Marriot (guitarra e voz principal), Kenny Jones (bateria) e Ian McLagan (teclados e voz) o Small Faces gravou um álbum que será lembrado eternamente. Na época eles tinham assinado a pouco tempo com o selo do empresário dos Stones, Andrew Oldham, a Immediate, e foram incentivados por ele a aumentar a abrangência de seu som e desenvolver as idéias que tinham.

Capa de uma coletânea da banda à frente de um simbolo da cultura mod,
que também chegou a ser utilizado pelo The Who em Quadrophenia

A intenção de fazer um álbum conceitual veio durante um passeio de barco pelo Rio Tâmisa sob a influência de diversos tipos de psicotrópicos. Porém na época, The Who, The Pretty Things e The Beatles entre outros tinham lançado ou estavam na iminência de lançar seus próprios discos conceituais. Como nenhum dos componentes foi estudante de artes, como eram os componentes dos grupos citados, essa história de ter de imaginar um conceito e desenvolvê-lo não seria fácil, mesmo sendo estimulados por substâncias químicas. Então a solução foi fazer um disco meio conceitual, meio com músicas independentes.

O álbum abre com a instumental “Ogdens’ Nut Gone Flake”, que mostra bem o que será o álbum, principalmente na segunda parte do mesmo. É construída através de um teclado com efeitos de wha-wha tocado por Marriot acompanhado de um piano tocado por McLagan. Na sequència vem a sensacional "Afterglow” (também chamada de “Afterglow (Of Your Love)”), que apesar de ser rotulada por Steve Marriot com “apenas uma canção boba de amor” é considerada por muitos o melhor trabalho de dele nos vocais, ou “uma resposta insolente à Otis Redding”, como disse Mick Farren.

Com acordes simples acompanhados de palmas inicia a calma “Long Agos and Worlds Apart”, que não se não é um dos destaques ao menos faz uma boa transição. Entre “Afterglow” e a excelente “Rene” cheia de bons backing vocals. Fala de uma “mulher da vida” que um dia ensinou algumas coisas para Marriot. É o tipo de música que pode se arrastar por muito tempo ao vivo com um final propício para diversas improvisações. Na sequência vem “Song of a Baker” com guitarras distorcidas, bateria se destacando e novamente um ótimo trabalho de voz de Marriot.

“Lazy Sunday”, foi o primeiro single, falava de alguns vizinhos de Steve, mas a maior curiosidade dela é que ele canta a música no que ele mesmo diz ser a canção que mais parece sua voz natural, exceto que o sotaque cockney foi um pouco exagerado propositalmente devido ao teor da letra. A intenção de se cantar assim foi de tentar ficar o mais diferente possível dos cantores pop americanos. A música se parece muito com as canções infantis exceto pelo solo de mellotron.

Ao longo do lado B do LP, a narração da história ficou a cargo de Stanley Unwin, que era um comediante e um editor de livros inglês. Unwin foi o responsável pelo lançamento de um dos maiores clássicos literários do século 20, O Senhor dos Anéis. Ele pagou o filho de dez anos para ler o texto que Tolkien tinha mandado para publicação e, após um relatório positivo, publicou o livro. A seguir tem um vídeo com apenas a narração completa que aparece no álbum, sem as músicas.

       

O conceito do (meio) álbum surgiu a partir de Ronnie Lane que olhando para a lua, provavelmente no período crescente ou minguante, ficou perguntando-se onde estava escondida a outra metade. Assim nasceu a história do personagem Happiness Stan que procura pela outra metade da lua em uma alegoria à vontade que todos temos de completar nossas vidas cheias de frustrações, preocupações, etc. Happiness Stan apaixona-se pela lua e de repente alguém some com a metade dela ou ela é comida pelo tempo. Porém de uma hora para outra a metade aparece de novo, como se ela tivesse vida. O nome Stan veio do nome do pai e do irmão mais velho de Ronnie.

Logo no início e após a introdução de Stanley Unwin já podemos perceber que teremos uma história a ser contada com a melodia parecida com as de desenhos animados antigos em “Happines Stan”. Mesmo sendo uma história a parte musical é bem interessante. “Rollin’ Over” é um hard rock padrão se considerarmos a época que foi lançada. A fantástica “The Hungry Intruder” em que Marriot arrasa novamente. A seguinte é a psicodélica “The Journey” na qual sabemos como é voar nas costas de um mosquito gigante. “Mad Jonh” é um folk rock de primeira e “Happy Days Toy Town” que, segundo alguns críticos, é como se os Beatles estivessem tocando "Always Look on the Bright Side of Life" do grupo de comediantes inglês Monty Phyton.

Relançamento recente em LP
O álbum ficou seis semanas em primeiro lugar nas paradas, tempo considerado longo e na época era um feito que só os Beatles conseguiam. Os singles de “Lazy Sunday” e “Afterglow” ficaram no número 2 e 36, respectivamente. Foi lançado em um box de metal circular simulando uma lata de fumo. Dentro da lata havia algumas sugestivas folhas de seda. Por ser uma embalagem cara foi relançada ainda na forma circular, mas dessa vêz em papelão, em formato gatefold, como os discos normais. O próprio nome do álbum foi uma paródia para Ogdens’ Nut-Brown Flake uma marca de fumo produzida desde 1899. Em CD foi lançado algumas vezes em formato simples, mas em 2006 saiu uma latinha circular contendo três discos sendo que um tem a versão em stereo, outro a versão em mono e o terceiro é um documentário sobre a gravação do disco daquela série Classic Álbuns.



Em 1969 Marriot surpreende todo mundo e se desliga da banda dizendo que não estava contente com o direcionamento musical do grupo e não poderia mais contribuir musicalmente. Steve Marriot já estava frustado desde o lançamento de Ogdens’ Nut Gone Flake por não conseguir executar ao vivo uma obra prima de estúdio. Na verdade apenas uma vez o disco foi completamente tocado ao vivo e em um programa da BBC chamado Colour Me Pop. Marriot seguiu a vida juntando-se a Peter Frampton no Humble Pie. O resto do grupo trouxe Rod Stewart e Ron Wood (futuro guitarrista dos Stones) e, aproveitando a mudança, resolveram também encurtar o nome da banda para Faces.

Tuesday, March 15, 2011

Lucifer Was - Underground and Beyond [1997]



Nós que gostamos de garimpar bandas esquecidas dos anos 60, 70 e 80 temos diversos exemplos de grupos que não tiveram o devido reconhecimento ou até mesmo não tiveram reconhecimento nenhum. Isso se deve a inúmeros fatores como falta de grana, escolhas erradas, má gestão ou simplesmente falta de sorte. Muitas dessas bandas surgiram, tocaram, compuseram músicas e nunca sequer conseguiram gravar um disco. Esse é o caso do Lucifer Was.

Para aqueles que ficaram curiosos de como eles chegaram nesse nome incomum para batizar a banda vou tentar resumir a história. No início a banda se chamava Ezra West, nome retirado da literatura inglesa do mesmo modo que aconteceu com Jethro Tull e Uriah Heep. Porém a pronúncia do nome sempre confundia as pessoas e isso os aborrecia bastante. Cansados de tentar explicar a origem desse nome trocaram-o para Lucifer. Independentemente das pessoas acharem esse nome adequado ou não para uma banda já haviam algumas (!) com o mesmo nome nos EUA e na Alemanha e isso também causava confusão. Sem decidir por um nome definitivo, enquanto não pensavam em outro e tendo em mente que Lucifer não seria mais utilizado, a resposta que começaram a dar para a pergunta “qual o nome da banda?” era a mesma: “Era Lucifer”, ou, em inglês, Lucifer Was. Assim acabaram adotando esse nome.

O Lucifer Was tocou junto por anos no início da década de 70 em seu país de origem, a Noruega. Chegaram a participar de alguns festivais e tiveram um relativo sucesso no underground do norte da Europa. Tocavam tanto por lá que Jan Ødegård, tecladista, ficou cansado e resolveu sair, ocasionando precocemente o fim da banda.

Durante essa época, entre 1970 e 1974, eles apenas gravaram algumas fitas demos que eram apresentadas para gravadoras, produtores e empresários, porém elas foram, durante um bom tempo, apenas recordações de bons momentos e nostalgia para seus componentes. Um dia, em meados dos anos 90, Einar Bruu, baixista, voltou a ouvir aquelas fitas e se surpreendeu com a qualidade das canções. Depois disso ele contatou todos os antigos companheiros para fazerem alguns shows em bares e ensaiar para bancar a gravação de um disco. Todos toparam menos Jan Ødegård. Assim a formação que gravou Underground and Beyond foi: Thore Engen (guitarras e voz), Dag Stenseng (flauta e voz), Anders Sevaldson (flauta e backing vocals), Einar Bruu (baixo) e Kai Frilseth (bateria).

Foto do Lucifer Was na década de 70

É difícil rotular o som do Lucifer Was. Eles constam em listas de bandas prog, hard e até heavy metal. Notem que a banda possui dois flautista ocasionando talvez a única banda que tem duelo de flautas à exemplo do que faziam as bandas de hard rock setentista e metal dos anos oitenta com as guitarras. Em muitos casos as flautas e guitarras se revezam na melodia da canção o que também faz com a banda tenha uma sonoridade única, como é o caso de canções como as pesadas “Scrubby Maid” e Teddy’s Sorrow.

Em “Song for Rings” novamente as guitarras dividem a melodia com as flautas folks, que por sinal é o estilo adotado para esse instrumento em praticamente todas as suas intervenções.

Vale lembrar que as músicas foram compostas durante o início dos anos 70 e a gravação ocorreu em 1997. Assim a sonoridade é um pouco diferente das bandas setentistas devido aos instrumentos, efeitos e gravações modernas que foram utilizadas, mas o clima da época das composições está todo lá. Seria interessante que as fitas demos que foram guardadas por Einar Bruu fossem lançadas à critério de curiosidade como bônus do disco.

“Out of the Blue” tem uma levada bem cadenciada e a melodia de flautas com acompanhamento da guitarra casou perfeitamente. No Lucifer Was não é comum a utilização de uma base de guitarra para acompanhar a principal, mas o expediente foi utilizado nessa canção, como também em “Light My Cigarette”. As músicas no geral são curtas, fugindo um pouco das característica da época. A mais longa é “The Green Pearl” com seus pouco mais de seis minutos. É Black Sabbath puro. Basta você imaginar que Tony Iommi está sendo acompanhado por Ian Anderson – fato que já aconteceu em um curto período em que Iommi abandonou o Sabbath e se juntou ao Jethro Tull. Tem como introdução a sequência de acordes de “The Hall of the Moutain King” do compositor clássico Edvard Hagerup Grieg, que por sinal é conterrâneo dos músicos do Lucifer Was.

Seguindo temos a sombria “Tarabas” que lembra novamente o Black Sabbath, principalmente no riff após o solo. Também em “Tarabas” Thore Engen canta de uma forma que poderia ser definido como um pré-gutural, diferente do modo que cantou em outras do álbum. Com “Fandango” voltamos clima que todo fã de classic rock e hard rock setentista adora, o mesmo acontecendo em “Asterix”, que fecha o álbum. “Fandango” tem a guitarra sem distorção apenas acompanhando as vozes, que por sinal fazem um ótimo trabalho nessa canção tanto nas estrofes quanto no excelente refrão. Temos também dois solos de flautas que caracterizam os duelos citados anteriormente. Forte candidata à melhor do álbum.

O peso volta em “The Meaning of the Life” com um riff pegajoso e um acompanhamento bem simples nas estrofes. O riff é acompanhado nota por nota pela flauta dando uma sonoridade bem característica para a banda. “In The Park” tem um início que parece alguma banda da NWOBHM ou até mesmo de uma banda de Thrash Metal da Bay Área, mas depois volta para o habitual, apenas mantendo o peso da guitarra em um ótimo riff sabbathiano. Para essa música o solo de flauta é acompanhado por uma guitarra sem distorção, apenas com um pouco de efeito. Porém quando a guitarra faz o solo a distorção volta com tudo.

Foto (não tão) atual da banda que excursiona hoje

A capa sinistra de Underground and Beyond não é clara, mas parece um anjo à frente da entrada de um túnel. Lembra muito as imagens de capas e fotos atuais das bandas de black metal norueguesas.

Depois do relativo sucesso do lançamento desse disco eles fecharam contrato com a Record Heaven e gravaram em 2000 o segundo álbum chamado In Anadi’s Bower, porém com Anders Sevaldson deixando a banda durante as gravações. Quatro anos depois foi a vez de Dag Stenseng abandonar o barco durante as gravações de um álbum, o terceiro, chamado Blues From Hellah, que foi seguido por The Divine Tree em 2007 e The Crown of Creation em 2010.

Na ordem: In Anadi's Bower, Blues Frem Hellah, The Divine Tree e The Crown Creation

A formação desde 1997 sofreu diversas mudanças e hoje excursiona com nove integrantes (quatro deles convidados), sendo apenas Thore Engen e Einar Bruu remanescentes. A partir do segundo disco a voz ficou a cargo de Jon Ruder, um vocalista com mais recursos que Thore Engen. Essa adição de vários músicos, inclusive de Jon Ruder, ampliou os horizontes dessa banda que no início poderia ser definida apenas como uma mistura de Black Sabbath com Jethro Tull, hoje é bem mais difícil definir. The Crown of Creation, por exemplo, tem adição de mellotron, violinos, teclados marcantes e até uma orquestra completa utilizada em estúdio (a Kristiansand Symphony Orchestra), que faz juz à opinião daqueles que os definem como uma banda de progressivo. Assim, com cinco discos gravados até então, temos uma discografia completa gravada durante os últimos treze/quatorze anos de uma banda que ficou hibernada no severo inverno norueguês durante mais de vinte anos.

Vale muita a pena ir atrás....

Friday, March 04, 2011

Spock's Beard - Snow [2002]


Após cinco ótimos discos o quinteto resolveu lançar seu mais audacioso disco e, como todos sabem, no rock progressivo isso significa muito trabalho, longa duração e, de preferência, um conceito a ser explorado durante todo o álbum. Assim sendo, a história concebida para ser contada é a de um rapaz de cidade pequena, que vai viver em uma das maiores cidades do mundo, Nova York. O álbum conta a história desse rapaz e de suas experiências na cidade. Logo após o lançamento do disco o vocalista do grupo resolveu que seu caminho devia ser trilhado sozinho e deixou seus antigos companheiros. No seu lugar, ao invés de trazer alguém de fora resolveram com uma solução caseira; promover o cara que normalmente menos aparece no palco a líder da banda, isto é, o baterista resolveu cantar.

Essa história é muito conhecida dos fãs de progressivo dos anos 70. O Genesis havia lançado alguns ótimos álbuns e logo após The Lamb Lies Down On Broadway, o lendário Peter Gabriel resolveu sair para uma boa carreira solo, deixando o posto para Phil Collins. Porém, essa história também serve para descrever exatamente do mesmo jeito a história de um outro grupo progressivo, o Spock’s Beard. Após cinco álbuns e já tendo conquistado certo espaço entre os fãs do estilo, seu vocalista, que também tocava algumas partes de teclado, Neal Morse, “encontrou Deus” logo após a gravação de Snow e resolveu sair da banda. Para o seu lugar como cantor foi escolhido Nick D’Virgilio, então baterista do próprio Spock’s Beard, que ainda conta com Alan Morse (guitarra), Ryo Okumoto (teclado) e Dave Meros (baixo).

Formação na gravação de Snow: Dave Meros,
Nick D' Virgilio, Ryo Okumoto, Neal Morse e Alan Morse
Com a saída de Neal Morse a banda continuou com sua sonoridade vinculada ao progressivo, mas agora de uma maneira mais acessível, seguindo a linha de bandas como Marillion e The Flower Kings. Os discos continuaram muito bons, em especial X, de 2010. Mas este artigo tem a intenção de falar sobre esse que para muitos é o melhor disco da banda, e que também sofreu diversas críticas que serão citadas no decorrer do texto.

Antes gostaria de falar um pouco da história que é contada ao longo do disco. Como resumido anteriormente, é a história de um garoto de uma cidade pequena que vai para Nova York. Porém, esse rapaz possui algumas características em especial. Ele nasceu dentro de uma família de trabalhadores rurais que tinham apenas o trabalho e a religião como ocupação. Porém, mesmo com poucos afazeres, e muito devido a isso também, é difícil para ele conviver com as pessoas da sua comunidade, de se envolver e se relacionar. Muito disso se deve ao fato de ele ser albino, fazendo com que as pessoas que o conhecem passassem a chamá-lo de Snow (neve) – “the working man's son, with skin like white lightning, and eyes like two shots from a gun”.

Para aumentar ainda mais seu isolamento entre as pessoas com que vive, ele possui o dom especial de saber o que as pessoas sentem. Assim ele conhece todas as mentiras e as indecências das pessoas. Porém, ele guarda esse segredo até se tornar um adolescente.

Após uma experiência espiritual, cuja natureza não fica clara no decorrer do álbum, ele decide deixar sua família para ir à Nova York, afinal é para lá que todo mundo quer ir. Então ele começa a passear pela cidade, olhando, checando, avaliando tudo e todos com os olhos inocentes de um garoto que nunca tinha estado em um lugar como esse e tinha poucas experiências realmente interessante na vida.

Nessas suas andanças ele conhece um rapaz, que na história é chamado de Harlem Knight, um garoto negro que o leva para um show de strip tease. Nesse momento descobre-se que Snow também tem poderes de cura. Knight e Snow começam a curar e converter pessoas de má índole que habitam a cidade. Os dois então criam uma organização chamada “The Touch That Heals”. Passam-se dois anos com as coisas indo muito bem e Snow se torna cada vez mais famoso, chegando à capa da revista Time. Porém, com o sucesso, seu ego começa a atrapalhá-lo.

No disco dois a história conta que ele conhece uma garota chamada Carie, que muda toda sua vida, fazendo-o cair em profunda depressão. Mas seu poder de ver os desejos das pessoas não o ajuda com Carie. Na verdade não é dito na história que seus poderes não funcionam com Carie, mas isso fica implícito. Porém, esse detalhe é utilizado por aqueles que julgam que a história do álbum é fraca. Na visão dessas pessoas, essa é uma informação importante e deveria ficar clara, ou então há um erro de continuidade da história. Mas seguindo o enredo, certo dia ele toca Carie, cai em transe e se vê andando nas ruas da cidade, bêbado e à beira da morte. Tendo essa visão, sua vida começa a desmoronar e Snow perde todo o respeito que tem das outras pessoas. A visão se torna realidade.

O final da história é um pouco confuso, com seu amigo Knight levando-o para um hospital, onde Snow volta à vida. Não sabemos se ele curou-se sozinho ou se foi Deus que assim o fez. Na verdade, tenho a impressão que Neal Morse deixou essa lacuna para que o ouvinte tire suas próprias conclusões. A parte engraçada é que, durante a história, Snow vai assistir a um show do Spock’s Beard, fato relatado na canção chamada “Ladies and Gentlemen, Mister Ryo Okumoto on the Keybords”.
Esse é um resumo da história contada ao longo dos dois discos de Snow. As convicções religiosas de Morse já se mostram bem claras em algumas passagens. É uma boa história? Cada um deve ter seu próprio julgamento. As críticas que li baseiam-se na opinião de que é pouca história para um disco tão longo. Eu acho interessante e considero o conceito desse álbum como uma mistura de The Lamb Lies Down on Broadway (Genesis) com Tommy (The Who).

Na parte musical temos um excelente disco com várias músicas de destaque. O primeiro CD é visivelmente superior ao segundo, mas sempre que ouço o álbum tento fazê-lo por completo, e após um longo tempo é natural que a concentração se perca. Tenho que ouvir mais vezes só o segundo CD para absorvê-lo melhor. Também temos o fato de que ao longo do álbum diversas passagens musicais são repetidas, trazendo unidade para o álbum em si, mas isso acaba fazendo com que algumas passagens do segundo álbum já não sejam novidade, apesar de muito boas. Esse é um tipo de expediente muito utilizado pelas bandas de progressivo em álbuns conceituais.

Os maiores destaques do disco são: “Stranger in a Strange Land”, “Welcome to NYC”, a linda “Open Wide the Flood Gates” e “All Is Vanity”. Também há duas Overtures na abertura de cada CD que são excelentes, iniciando perfeitamente ambos os discos.

Formação atual: sem Neal Morse
Mas o destaque maior vai para “Long Time Suffering”. Conheci a banda por meio dessa canção, em meados de 2003, e tinha a intenção de escrever esse texto como uma matéria para a coluna do Mairon Machado, “Maravilhas do Mundo Prog”. Ela não é longa como todas as músicas citadas na coluna, mas é maravilhosa. Seu instrumental no início lembra fortemente algumas canções de Yes e Emerson, Lake and Palmer, mas se engana quem acha que vai encontrar nessa faixa apenas viagens sonoras. A frase de guitarra no início é de emocionar qualquer um. Harmonia, melodia e emoção dosadas perfeitamente com um certo apelo pop que poderia até tocar nas rádios, inclusive possuindo um grande refrão. Esse é o tipo de música que qualquer um vai gostar, independente de que subestilo do rock a pessoa aprecie, e ouso dizer que em muitas músicas o Spock's Beard consegue isso. Há uma mudança no andamento, mas sem ser brusca como costuma acontecer no progressivo, um solo com perceptível improviso, com um efeito não usual, e uma seção de voz a cappela nos moldes do que o Gentle Giant fez maravilhosamente nos anos 70, com várias vozes cantando coisas diferentes. Até agora, para mim, é a melhor música dessa banda que possui diversas ótimas canções distribuídas em todos os seus dez álbuns.


A barba de Spock (Spock's Beard)
É uma pena saber que, depois de um lançamento tão bom, a banda se separou, ainda mais por questões religiosas que não deviam ser entraves para nenhuma forma de arte. Neal Morse lançou, após um tempo, alguns discos solo não tão bons, contendo apenas alguns momentos interessantes, mas participou (e ainda participa) do Transatlantic, supergrupo do progressivo atual, que conta com Mike Portnoy (bateria, Dream Theater), Pete Trewavas (baixo, Marillion) e Roine Stolt (guitarra, The Flower Kings). O Spock’s Beard, como já disse, teve alguns outros discos que fazem juz ao material antigo e não comprometem a carreira que se seguiu. Juntamente com o Porcupine Tree o grupo lidera a onda do rock progressivo atual. Vale a pena dar uma chance para a banda.

Monday, February 28, 2011

Uma introdução ao Rock Progressivo Italiano - Parte II


Depois de ter indicado cinco álbuns para se iniciar no rock progressivo italiano, apresento esta segunda parte com mais cinco discos importantes e bastante representativos do estilo. O critério utilizado para a escolha dessas obras será apresentado no decorrer do texto. Porém, com o intuito de adicionar informações contidas na primeira parte serão citadas mais algumas características próprias da cena e das bandas italianas. Para quem não leu a primeira parte clique aqui.

A Itália no começo dos anos 70 era um caldeirão efervescente de músicos, idéias e, como comentado anteriormente, de divergências políticas. Os partidos de esquerda estavam se levantando contra os de situação e havia muitas manifestações pelas ruas. Alguns desses partidos organizavam comícios, e uma forma de atrair público, especialmente o público jovem, era o de contar com apresentações musicais. Esses comícios duravam horas, e se pareciam muito com os festivais. A diferença é que no lugar de algumas bandas existiam discursos. Com isso muitos desses músicos acabaram sendo relacionadas à certos partidos, mesmo quando não partilhavam dos mesmos conceitos. A intenção dos grupos era estar presente, e o espaço oferecido não podia ser desprezado.

Bandas de outros países se apresentavam frequentemente na Itália, como o King Crimson, que certa vez literalmente fugiu do palco por causa de manifestantes políticos, e o Van der Graaf Generator. Essa última tinha um sucesso tão grande na Itália que teve o seu disco Pawn Hearts (1971) figurando na primeira colocação da parada italiana durante muitas semanas, além do fato de seu líder, Peter Hammil, ser tratado com extrema adoração pelos italianos. É realmente surpreendente conhecermos essas informações, afinal nem mesmo na Inglaterra isso era possível. Algumas bandas faziam mais turnês na Itália do que na Inglaterra ou qualquer outro país simplesmente porque seus shows na península itálica lotavam, diferente do seu país natal.

As bandas italianas tinham o costume de utilizarem mais de um tipo de teclado na mesma música e durante os discos. Além do mellotron, do hammond, do moog e outros, o piano e o órgão também eram empregados a serviço da criatividade dos músicos, muitos deles multiinstrumentistas. Era normal o baterista ir para o teclado, ou para algum instrumento de sopro, e o mesmo acontecia com guitarrista, baixista, etc. As guitarras como são usadas no rock não eram tão evidentes, sendo substituídas pelo violão ou mesmo pela própria guitarra sem efeito algum. Cabe aqui comentar sobre a utilização das flautas. Todas as bandas que utilizam esse instrumento são logo relacionadas com o Jethro Tull, mesmo que seu som não seja em nada parecido com eles. Depois de ouvir o RPI essa associação acaba. Já que quase todas as bandas fazem uso das flautas, assim como de vários outros instrumentos de sopro.

A cena italiana era tão grande na época que talvez esse seja exatamente o motivo de seu rápido declínio. Com um grande número de bandas lançando material, outras estrangeiras fazendo shows e também lançando discos, os italianos tinham que fazer um esforço enorme para conseguirem um lugar ao sol. O público do país também tinha que fazer um esforço tremendo, principalmente financeiro, para ficar por dentro das novidades. Imagine-se um fã de rock progressivo no começo dos anos setenta com os mesmos interesses que você tem hoje. Ou seja, você gosta de várias bandas inglesas além das italianas, eventualmente algumas alemães e uma francesa. Com todos esses grupos lançando discos uma vez ao ano, imagine a grana que você teria que gastar para adquirir e ouvir tudo isso. Temos que ter em mente que na época nem fitas cassete existiam, então se você fosse escutar algo tinha que ser do LP ou das rádios. Bandas novas dificilmente tocavam nas rádios, e, além do mais, o início da década de 70 foi talvez a época mais prolífica da história do rock em geral. Concluindo, para uma banda nova era muito difícil conseguir gravar um disco, e muito mais difícil ainda conseguir ganhar dinheiro com isso.

Então, finalizando essa introdução e considerando o parágrafo anterior, cito agora cinco discos de bandas que por todos os motivos descritos acima lançaram apenas um álbum durante o período de ouro do RPI. Falo desse período porque algumas delas até lançaram um segundo álbum depois de muitos anos, mas isso se deve ao sucesso tardio que essas obras tiveram, fazendo com que os músicos se reunissem novamente para fazer alguns shows para prestar tributo a esses discos e eventualmente gravar um novo. Algumas dessas reuniões, que ocorreram somente a partir dos anos 90, foram feitas ainda com poucos componentes originais. Menção honrosa ao Alphataurus e ao Campo Di Marte que lançaram em 1973 discos homônimos, mas como tinha que escolher apenas cinco discos, esses tiveram que ficar de fora. 


Biglieto Per l'Inferno – Biglieto Per l'Inferno [1974]

Bastante diverso o universo sonoro do Biglieto Per l'Inferno, que significa "bilhete para o inferno". Apesar do nome, não têm ligação alguma com o lado do mal, tendo sua letras relacionados a temas sociais e psicológicos. Musicalmente eles vão da calmaria para a tempestade em poucos segundos, mas de uma maneira tão natural que impressiona, assim como a habilidade musical dos componentes. Eles chegaram a gravar um segundo álbum em 1975 chamado Il Tempo Della Semina, mas que não foi lançado na época, saindo em CD apenas em 1992. A curiosidade é que, após a separação em 1975, Claudio Canalli, voz e flauta, foi viver como um monge em um monastério na região da Toscana. Como muitas bandas, eles retornaram há poucos anos, com uma formação de nove (!) componentes, sem Claudio Canalli, e estão fazendo alguns shows, gravaram um álbum ao vivo em 2005 e um terceiro álbum Tra l'Assurdo e La Ragione (2009).


Buon Vecchio Charlie – Buon Vecchio Charlie [1972]

A banda se separou logo após a gravação do disco, certamente por falta de apoio para a promoção do álbum. Todos os componentes continuaram carreiras artísticas, sendo que três deles, Luigi Calabrò (guitarra), Rino Sangiorgio (bateria) e Paolo Damiani (baixo) formaram o Bauhaus (não confundir com o grupo britânico de gothic rock) que abusava ainda mais da influência de Miles Davis que já aparecia ao longo de todo esse álbum. O disco inicia com "Venite Giù Al Fiume" usando uma melodia já utilizada por Lucifer's Friend e Helloween de um clássico da música erudita chamado "In the Hall of the Mountain King", de Edward Grieg, que prepara para uma jam muito interessante. "All'Uomo Che Racccoglie I Cartoni" tem tantas mudanças de andamento que pode confundir um ouvinte menos interessado e acostumado, mas após algumas audições o prazer é garantido.


Semíramis – Dedicato a Frazz [1973]

O título desse disco, que significa "dedicado à loucura", descreve muito bem o som que sai das caixas de som ou dos fones de ouvido, dependendo de como você costuma ouvir suas músicas. O uso de instrumentos variados é a tônica do álbum, sendo que o que mais chama atenção é o xilofone, além dos sintetizadores, como por exemplo na faixa "Uno Zoo di Vetro". Quando descobri que foi gravado por adolescentes e que Michele Zarillo, guitarrista e vocalista, na época tinha apenas dezesseis anos, fiquei impressionado. "Per Una Strada Affollata" tem uma passagem de guitarra, baixo e sintetizadores muito legal, fazendo com que você torça para que a música não acabe nunca. Mas os dois maiores destaques são "Dietro Una Porta di Carta" e "Frazz". Porém, esse é um álbum difícil de assimilar. É preciso um pouco de insistência para isso. É bom estar bem habituado à sonoridade do estilo.


Maxophone – Maxophone [1975]

A banda foi formada em 1972, mas só conseguiram lançar esse disco três anos depois, já estando o grupo dissolvido. Foi também gravado em inglês, mas nunca ouvi essa versão. O disco inicia e você tem a impressão de que pegou um disco de algum pianista clássico até a entrada das guitarras distorcidas, mas logo depois a música volta à calmaria novamente com Alberto Ravasini cantando com o piano ao fundo e à medida que o tempo vai passando os outros instrumentos vão ficando mais nítidos em uma das canções mais bonitas do RPI, "C'è Un Paese Al Mondo". "Fase" tem uma introdução que lembra as bandas de hard rock do fim dos anos sessenta com um riff bem cadenciado, mas não se engane, a faixa, que é instrumental, se torna um jazz rock bem criativo com algumas influências clássicas. A parte das guitarras lembra um disco solo de Jan Akkerman do Focus. O uso de diversos instrumentos é uma constante durante todo o álbum e a impressão que nos dá é que as influência estrangeira é mais evidente na banda do que em outras da Itália. Esse disco rivaliza muitas vezes com o Zarathustra como o melhor disco de prog italiano. Para falar a verdade eu mesmo gosto mais dele.


Museo Rosenbach – Zarathustra [1973]

O Museo Rosenbach é um fenômeno. Mesmo com apenas um disco lançado na época, é uma lenda entre os admiradores do RPI. Esse disco é frequentemente citado como o melhor do gênero e é obrigatório para todos aqueles que se interessam pelo estilo. Zarathustra é um álbum conceitual influenciado por Nietzsche. Foram muito criticados e até perseguidos por acharem que o disco fazia alusão e apoio ao facismo. Como não entendo muito de italiano não posso opinar em relação à isso e ainda não encontrei um "letras traduzidas" do álbum. A capa também é criticada pelo mesmo motivo. Como toda obra muito conhecida e cultuada, sempre aparece alguém para falar mal. Certa vez li que esse disco não passava de rock normal com adição de mellotron, o que é pura bobagem. A faixa de abertura, "Zarathustra" é divida em várias partes e tem muitas características floydianas, que me lembram muito "Atom Heart Mother". No LP a faixa título tomava todo o lado A com seus vinte minutos de duração. Chama a atenção, principalmente em "Della Natura" o trabalho de bateria de Giancarlo Golzi, muito parecido com o que Carl Palmer fazia, com diversas viradas e variações. "Dell‘Eterno Ritorno" apresenta Stefano Lupo Galifi cantando de uma forma agressiva, o que não é normal no RPI. Aos que se interessarem e quiserem adquirir o LP, já adianto que os valores que encontrarão são um pouco salgados. Esse é um caso no qual um relançamento com uma boa remasterização traria felicidade para muita gente.

Wednesday, February 16, 2011

King Diamond - The Eye [1990]



Podemos nos referir a King Diamond como o vocalista com maquiagem demoníaca, que canta em falsete e usa uma cruz feita de ossos como base para seu microfone, ou podemos falar sobre a banda como um todo. Claro que é muito mais representativo falar do vocalista dinamarquês, afinal o grupo leva seu nome artístico, mas acredito que isso diminuiria o trabalho dos outros músicos integrantes, principalmente de um guitarrista fantástico chamado Andy LaRocque. Todos os outros componentes da banda ao longo dos anos foram mudando, mas o cerne do grupo é essa dupla. Antes de falar sobre o disco que é tema deste artigo eu gostaria de deixar registrado o quanto considero Andy LaRoque um guitarrista excelente, porém injustiçado e quase sempre esquecido. Além do seu ótimo trabalho com o King Diamond, Andy também foi membro durante um tempo de outra grande banda, o Death de Chuck Schuldiner, gravando o álbum Individual Thought Patterns.

Andy La Rocque em foto atual de seu site oficial

The Eye é um clássico disco conceitual do King Diamond. Em sua carreira solo, o vocalista deixou de lado o satanismo que era o tema principal de sua ex-banda, o Mercyful Fate, para se dedicar a contar histórias de terror. Apenas dois de todos seus discos solo não são totalmente conceituais, a saber, Fatal Portrait (1996) e The Spider’s Lullabye (1995). Porém, mesmo esses álbuns ainda possuem algumas músicas ligadas entre si.

A história de The Eye gira em torno de um colar conhecido como “O Olho da Bruxa”, ou simplesmente “O Olho”. Esse objeto tem poderes que permitem mostrar o passado para quem o usa e também causar a morte de quem o olhar diretamente. O álbum abre com “The Eye of the Witch” que apresenta ao ouvinte o colar e suas características. A canção foi o único single lançado do disco.

Depois disso temos “The Trial (Chambre Ardente)”, que conta o julgamento de Jeanne Dibasson, uma suposta bruxa. O tribunal é comandado por Nicholas de La Reymie, chefe da Chambre Ardente, ou Câmara Ardente, que nada mais é que o órgão da Inquisição Francesa. A música na verdade é um diálogo entre o investigador e a mulher. O clima da canção, com seu riff pesado e arrastado, combina perfeitamente com o diálogo e os eventos que ocorriam realmente nesse tipo de caso de suspeita de bruxaria. No álbum todos os nomes dos personagens que são apresentados são descritos como reais, como mostra o texto, traduzido, abaixo:

“As partes principais das histórias narradas
neste álbum são, infelizmente, verdadeiras
e ocorreram durante a inquisição francesa,
entre 1450 e 1670. Todos os personagens seguintes
são reais e pertencentes àquela época.”

Como todos sabem, esses julgamentos na época praticamente tinham um fim certo, a execução da bruxa. É o que descreve a música seguinte. Com seu sugestivo título, “Burn”, conhecemos então o destino de Jeanne Dibasson, o mesmo destino de diversas pessoas durante o período de inquisição na Europa. Uma particularidade da Inquisição Francesa é que, diferentemente da Espanhola e da Portuguesa, quem fazia a investigação eram juízes de direito. Depois de julgada, aí sim a pessoa era passada para a igreja, a fim de receber sua punição. Mas é claro que isso era apenas uma mera formalidade.

Um representação de um tribunal de inquisição "trabalhando"

“Two Little Girls” faz a conexão entre a história de Jeanne Dibasson com a parte restante do disco. Teclados sinistros acompanham a voz de King Diamond ao narrar a cena de duas meninas que estão brincando em um local onde as bruxas eram queimadas, quando encontram um colar no meio das cinzas. As duas garotas brigam pela posse dele e uma delas, ao olhar fixamente para o objeto, morre. Não há referências a isso, mas é coerente pensar que a garota que ficou com o colar é Madeleine Bavent, personagem central da segunda parte da história, que acontece em um convento em Louviers, que fica no norte da França. A segunda parte da história inicia-se com “Into the Convent” (não confundir com “Into the Coven”, clássico do Mercyful Fate) que conta a história da freira, Madeleine, que era forçada pelo padre Pierre David, capelão do convento, a participar nua de um ritual chamado por ele de “comunhão”. Em um dos dias do ritual ela resolve colocar o colar e padre David morre ao olhar para ele. “Into the Convent” é musicalmente uma das melhores do álbum, destaque para os guitarristas, que detonam nessa música.

O convento não pode ficar sem um capelão, então padre Mathurin Picard (ou “Father Picard”, nome da faixa) é o novo encarregado. Rapidamente ele escolhe quatro freiras que vão participar com ele de uma “comunhão” (sim, novamente a tal comunhão). Mas as freiras começam a ser controladas por padre Picard por meio de um pó branco que ele adiciona no vinho que elas ingerem durante o ritual, deixando-as sem lembranças e sem vontade própria. Na próxima canção, “Behind These Walls”, Madeleine começa a ter alguns flashes e lembrar-se vagamente de alguns acontecimentos dessa comunhão e fica se perguntando o que acontece atrás desses muros do convento.

O Rei Diamante se preparando para um show

O mistério é desvendado na faixa seguinte, “The Meetings”. O que acontece é nada mais nada menos um ritual de sacrifício de recém-nascidos que são crucificados por dois padres e quatro freiras, todos liderados por Picard. Nessa hora nos lembramos do texto em que diz que os eventos contados no álbum são verdadeiros. Sinistro...

Seguindo, temos uma música instrumental chamada “Insinity”. Belo arranjo de violões, acompanhando um solo cheio de melodia e muito bonito. Após acompanhar a história sinistra que estávamos conhecendo, essa música serve para aliviar a tensão da descoberta que tivemos ao saber dos bebês e da crucificação. Também prepara o ouvinte para o desfecho da história. Todos os que participavam dos rituais foram presos, é o que conta “1642 Imprisonment”. O solo no final dessa música é o mais fantástico do disco. Madeleine Bavent, agora presa, sente-se mais livre libertando-se do inferno que era sua vida.

O disco encerra com “The Curse” que tem o objetivo de fechar a história dizendo que o poder do “Olho” vai sempre continuar. Como na primeira faixa a pessoa estava voltando ao passado, podemos dizer que agora ela está retornando ao presente e assim acaba a história deste que é o meu disco preferido do King Diamond. Talvez eu goste dele até mais que dos discos do Mercyful Fate.

O instrumental dos discos do King Diamond são sempre marcantes. Os músicos que o acompanharam ao longo da sua carreira sempre foram de altíssimo nível. Lembro-me de uma entrevista com Mikkey Dee, atual baterista do Motörhead, dizendo que era muito exigido nos shows devido à intensa variação rítmica e à dificuldade de execução das músicas quando era baterista do King Diamond.

Pete Blakk, Hal Patino, King Diamond, Snowy Shaw e Andy La Rocque

Acompanhavam King Diamond na época, além de Andy LaRocque, Pete Blakk na outra guitarra, Hal Patino no baixo e Snowy Shaw na bateria. O baixista acompanhou a carreira de King Diamond ao longo desses anos, ficando fora apenas durante sua saída no fim de 1990 até 2000. Snowy Shaw tocou em várias bandas ao longo dos anos 90, entre elas Memento Mori, Dream Evil e Mercyful Fate, mas o curioso é que de um tempo para cá ele deixou as baquetas para se dedicar aos vocais, além de também tocar guitarra eventualmente. Em 2006 ele gravou o álbum Gothic Kabbalah, da banda Therion. Em agosto de 2010 ele foi anunciado no Dimmu Borgir, mas um dia depois voltou para o Therion. Pete Blakk saiu logo após gravar esse álbum por problemas com drogas e hoje tem uma banda com Hal Patino chamada Disaster Peace.

Contracapa do album

Adquiri esse disco por volta de janeiro de 1992. Na época tinha treze anos de idade e aquela imagem da contra capa com uma mulher sendo queimada viva me deixava vidrado. Sempre tive prazer em ler desde pequeno. Comecei a ler livros com a famosa “Coleção Vagalume”, e imagino que muitos iniciaram com eles também. Então, depois de adquirir esse disco, ir traduzindo-o aos poucos e conseguir entender um pouco da história, a palavra “inquisição” ficou gravada na minha mente. Li tudo o que encontrei sobre o assunto e hoje em dia a época da história que mais me agrada é a Idade Média, certamente influenciado por tudo isso.